Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

✉️ Maria Rita canta Elis Regina

Newsletter do Juremir #204

✉️ Maria Rita canta Elis Regina
Maria Rita em cena no Araújo Vianna

OFERECIMENTO:

Maria Rita canta Elis Regina

No Araújo Vianna, sexta-feira, em Porto Alegre, Maria Rita encarnou de vez a mãe, a gaúcha Elis Regina, sem hesitações nem temores. Eu nunca a vi de outra maneira. Para mim, desde a primeira vez que ouvi Maria Rita, pensei que ela seguia os passos da mãe, queria ser a mãe, seria sempre comparada com Elis Regina. A casa estava lotada. Maria Rita interpretou também canções de outros, como Rita Lee e Adoniran Barbosa. Nesse Redescobrir 2, ela voltou aos palcos e ao melhor das suas performances.

Fiquei pensando, já durante o show, nessas músicas tão conhecidas que já as ouvimos com tamanha naturalidade que não chegamos a sair do foco. Outras, contudo, apesar dos anos e das repetições, conservam a estranha capacidade de acionar o botão da estranheza. Como nossos pais é um dessas obras-primas que tira do prumo e me joga numa atmosfera de nostalgia sem objeto. De repente, sinto saudades até do que não fui nem poderia ter sido.

A parte que mais me toca e abala, na composição de Belchior, é esta:

Já faz tempo, eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais

Poetas acadêmicos costumam pensar que letra de música não é poesia ou só poesia quando acompanhada de música e com interpretação, em ato. Esses versos de Belchior colados acima mostram que nem sempre é assim. Eles se sustentam no silêncio da noite, na solidão sem acordes, na violência do trânsito, na balbúrdia de sons de um mercado popular e na tristeza de uma sala de espera de hospital. Não precisam de acompanhamento. Nem de apoios.

Cantados por Elis Regina, recantados por Maria Rita, ganham, claro, uma dimensão cósmica. Condensam mil páginas de biografia, vivida ou não, em quatro linhas incompletas feitas de síntese e de fotografia da eternidade.

A magia desses instantâneos consiste em fazer do instante flagrado pela câmera um ponto do holograma do universal e intemporal. O todo está nesse fragmento, que está no todo como uma alegoria da humanidade.

Havia jovens na plateia de Maria Rita, talvez para sentir nostalgia do futuro. É de bom tom dizer que há grandes talentos por aí que os mais velhos desconhecem. Afirmar que já não se fazem letras como antes é coisa de velho. Então, velho que sou, desafiarei: tragam-me uma letra como essa, escrita nos últimos cinco anos, e eu me renderei ao afago aos mais jovens.

A poesia e a música estão em decadência no Brasil. Atravessam o pior dos tempos. Nesta época de inteligência artificial e desaparecimento dos mistérios, em que tudo se torna transparente e opaco, não há mais espaço para metáforas cosmológicas e existenciais. Tudo é direto, plano, reto.

Belchior sabia do que estava falando e previu a reação:

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam, não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém.

A própria Maria Rita parece comprovar essa tese em forma de canção popular. Ainda somos os mesmos e as aparência não enganam, não, ouvimos Elis Regina para lembrar que não apareceu mesmo mais ninguém à altura.

Salvo a filha em modo homenagem.

Maria Rita e banda ovacionadas