Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

✉️ Marimbos e bombas

Newsletter do Juremir #222

✉️ Marimbos e bombas
O Chat GPT não conhece Palomas, nem as pandorgas da Fronteira Oeste.

OFERECIMENTO:

Marimbos e bombas

Cláudia estava desenhando uma pandorga para um bordado. Era uma pipa. Pandorga de carioca. Ficou bonito. Até parecia que poderia voar a um sopro.

Mas me fez pensar em nossas diferenças culturais. As nossas pandorgas, em Palomas, eram exclusivamente de dois formatos: retangulares (marimbos ou marimbondos) e redondas (bombas). A arte de fazer pandorgas passava de geração em geração como um savoir-faire de muita importância.

As pessoas atendiam por nomes que se completavam com os nomes dos pais. O maior fazedor de pandorga de Palomas era o Adair do seu Adélio.

Na Semana Santa, ou pouco antes, já estava sobrecarregado de encomendas. Tentei entrar nesse ramo, mas não tive sucesso por questões, suponho eu, de aerodinâmica. Minhas pandorgas não se equilibravam no ar.

Conta-se que as primeiras pandorgas surgiram na China por volta de 1200 antes da nossa era. O que não surgiu na China? No começo, teriam uso militar para transmissão de mensagens. Depois, ritualístico. Por fim, lazer.

Sempre fui louco por pandorgas. Na Semana Santa, fico nostálgico. De pronto me vem um desejo de estar em Palomas, de atravessar a cerca do campo do Seu Candoca para fugir da fiação e me perder nas coxilhas soltando um marimbo vermelho e branco. As folhas eram coladas com pirão de farinha.

Leio num site que são muitos os nomes de uma pandorga no Brasil: Arraia (Bahia); pipa (Rio de Janeiro); papagaio e pipa (São Paulo); pandorga (Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina); quadrado, tapioca, balde (Nordeste). Fala-se soltar pipa, soltar pandorga, etc. Para nós era somente “levantar pandorga”. Ninguém errava.

Os franceses chamam pandorga de “cerf-volant”. “Cerf” é cervo. Um cervo voador? A expressão seria uma deformação de “serp volant”, ou serpente voadora, conforme os desenhos originários do oriente, da China.

O jornal francês Le Figaro, um dos mais tradicionais, o Estadão deles, publicou um texto sobre “a surpreendente origem do termo cervo-volante”. Começa: “É um brinquedo um pouco fora de moda, mas de um charme inextinguível”. Assim é que eu penso. Um charme com aroma de infância.

Segundo o jornal francês, “acredita-se que a pandorga tenha surgido na China, no século IV a.C. Isso faria dela — juntamente com o pião — o brinquedo mais antigo do mundo. No Médio Império, o objeto tinha o formato de um dragão gigante ou de uma serpente. Aliás, a palavra alemã para pandorga é "drachen", que significa "dragão". Não pensemos em datas.

Como não se encantar com a ideia de um céu coalhado de dragões e serpentes coloridos? Ou mesmo de retângulos, triângulos e círculos?

As nossas sociedades hierarquizavam tudo em termos de gênero. Os marimbos eram para meninos; as bombas, para meninas. Por que mesmo?

Parodiando uma música muito bonita de um cancioneiro gaúcho nativista, volta e meia penso que ainda sou menino de soltar pandorga no céu, sem nuvens das manhãs de brisa nas coxilhas do meu pago. Ainda sou menino.

Quem, em Palomas, terá herdado a arte do Adair do Seu Adélio?