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Parêntese #307

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Imagem: Daniele Levis Pelusi

Uma imagem do cronista Nelson Rodrigues nunca mais me saiu da cabeça, desde que a li pela primeira vez. Fala da passagem do tempo, “em direção à eternidade”. Isso aí entre aspas é a imagem.

Por que permaneceu comigo, formando parte desse acervo involuntário que a memória vai acumulando e no fim das contas representa nossa mais profunda interpretação da vida? Faço nenhuma ideia. 

Poderia ser objeto de algumas sessões de análise, tendo como ouvinte um profissional ou um velho amigo. Por quê? Por que comigo ocorreu de essa imagem grudar?

Uma boa hipótese é que também eu estou ficando velho. Como qualquer um que continua vivo, me sopra a consciência; mas é que eu sou eu, eu é que percebo a passagem do tempo, ou seu acúmulo, na forma de memórias, boas e más, cá comigo. E ficar velho é aquilo ali, caminhar para o fim dos tempos, é contabilizar menos um ano a viver. 

No meu caso há um fundo cristão inamovível. Fui católico, mas, como já disse alguém, talvez Gore Vidal ou um outro debochado desse tamanho, é muito difícil, talvez impossível abandonar totalmente um clube tão poderoso quanto a religião em que se foi criado. Esse fundo é que me convoca, acho, para pensar em “eternidade”. 

Eternidade é lá onde os anos se acumulam: vão chegando e estacionando, causando talvez algum engarrafamento. Mas a eternidade é como o infinito, não faz diferença o volume que ali aporta. 

A melhor sabedoria, penso cá comigo, é aquela que nos faz ver que o momento presente é a única coisa real. O passado é memória ou olvido, o futuro é desejo ou temor, e nenhum deles está ao alcance imediato da mão. 

O prezado leitor e a gentil leitora por favor tomem essa conversa-mole aqui como um aperto de mão, ou um abraço, uma saudação, um toque na aba do chapéu, da parte de quem, como nós aqui na Parêntese e na Matinal, acredita no que faz e lhe deseja o melhor. 

Que a eternidade cuide lá de si, que nós vamos manter os olhos atentos para a vida cá na trivialidade do presente. 

Luís Augusto Fischer


Nesta edição

Geraldo Hasse encerra a série Serranos na várzea, desta vez falando sobre peões urbanos. Também com análise partindo do Rio Grande do Sul, Álvaro Magalhães reflete a respeito da crise climática e o nosso futuro diante dela. Já Arnoldo Doberstein conta a história da criação da Faculdade Livre de Direito em Porto Alegre, em 1900, e a presença de magistrados nordestinos como professores à época. 

Nesta semana, celebramos o dia do Pampa, bioma essencial para a garantia do equilíbrio natural e ecossistêmico rio-grandense. A bióloga Lilly Lutzenberg, filha do ambientalista gaúcho José Lutzenberger, detalha como a trajetória do pai se entrelaça com a preservação do meio ambiente em nosso estado.

Assustadas com tamanha violência, trabalhadoras da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial) de Porto Alegre, compõem uma carta à Juliana da Silva Dias, encontrada morta, seminua, em uma lixeira no bairro São João, na zona norte. 

Luís Augusto Fischer entrevista Michelle Aparecida dos Santos, que recentemente lançou Cicatrizes da rua, narrando a própria história. A autora trabalha há 25 anos com o jornal Boca de rua. Aliás, Juremir Machado da Silva fez uma nova tradução de Rimbaud, publicado pela editora Sulina – é a respeito disso que o colunista da Matinal escreve nesta edição da Parêntese. E Helena Terra aborda o trabalho de duas escritoras, Helena Morley e Maria Lutterbach. 

Considerando o resultado da eleição presidencial no Chile, Alexis Cortés faz apontamentos sobre o futuro das ideias progressistas no país. Outros textos analíticos são de Jandiro Koch, com um mergulho na vida do tenor pelotense José Amaro, e de Beatriz Marocco, entre o bug do milênio, formigas e a “merdificação” da internet. 

Quem encerra a programação é Cristiano Fretta, apresentando o sétimo capítulo do folhetim Diário da guerra do sono.

Voltamos com textos inéditos no dia 10 de janeiro! Boas festas e boas leituras!

Confira todos os textos da edição #307