Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

✉️ Mulheres e as bets

Tudo É Gênero #52

✉️ Mulheres e as bets
Mulheres ainda são minoria entre apostadoras, mas maioria entre quem busca ajuda | Foto: Paul Hanaoka/Unsplash

Mulheres que pagam a conta

Imagine uma pessoa responsável pelas despesas da casa que decide apostar em bet para complementar a renda. Ela perde o dinheiro, perde muito mais do que podia. Tanto que não tem mais para pagar o aluguel do mês.

O que você acha desse comportamento?

Essa foi uma das investigações feitas pela pesquisa Mulheres & Bets. Oitenta por cento dos entrevistados disseram que essa pessoa deveria se sentir culpada. Quando são acrescentadas as informações de gênero e parentalidade, temos a confirmação de que essa culpa não é distribuída igualmente.

Quando o apostador é um homem sem filhos, 67% acham que ele é totalmente culpado, e 15% acreditam que ele divide a culpa com a esposa. No caso da apostadora mulher e sem filhos, 51% a consideram totalmente culpada, e 27% dividem a culpa com o marido. 

Como destacam as pesquisadoras, sustentar a casa ainda é visto pela maioria como obrigação do homem. Mesmo num país onde a maioria dos lares é chefiado por mulheres.

Agora vejam o que acontece quando a pergunta é sobre apostadores com filhos: no caso hipotético do pai, a culpa é atenuada; já o julgamento da mãe é mais rígido, ela é mais questionada como provedora e considerada mais irresponsável.

O mesmo levantamento também revelou que cada vez mais mulheres jogam: 42% apostam ou já apostaram, e as que têm filhos jogam cerca de 1,6 vez mais. Os relatos coletados sugerem que, para elas, jogar tem mais a ver com a tentativa de fechar as contas do mês ou sonhar com um cotidiano que vá além da sobrevivência – uma entrevistada contou ter apostado para conseguir comprar um bolo de aniversário para o filho.

Não joga, mas perde

No caso da epidemia das bets no Brasil, a conta chega até para a mulher que não joga. Ainda segundo a pesquisa, 12% que nunca apostaram dizem sofrer os efeitos do vício de parceiros ou parentes. Estamos falando de perdas de diversas ordens: financeiras, afetivas, sociais e de saúde. O estudo foi divulgado nesta semana pelo estúdio Clarice, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA.

Minoria entre quem aposta, as mulheres costumam ser maioria na rede de apoio de quem precisa de ajuda. Basta comparecer a um encontro dos Jogadores Anônimos para encontrar casos como a sogra que acompanha a nora que joga, a mãe que leva o filho adicto, a esposa que vai mesmo sozinha já que ainda não convenceu o companheiro de que ele precisa de tratamento. Muitos pais estão presentes, mas é visível a presença majoritária de mulheres.

O levantamento do estúdio Clarice, que combinou 20 grupos qualitativos com 60 mulheres e homens e uma enquete nacional com 2.008 entrevistados, foi feito em julho deste ano, e revelou ainda que 67% das mulheres afirmam que as apostas estão acabando com as famílias brasileiras – entre os homens, o índice é de 59%.

As mulheres e as bets
Café da Manhã · Episode

Ouça a entrevista de duas pesquisadoras que assinam o estudo

Nem todo comportamento de jogo é problemático. Mas quando jogar sai do controle, a conta é muito alta, individual e socialmente. As perdas no Brasil são da ordem dos bilhões, mas todos os jogadores e os parentes de pessoas em recuperação com quem conversei foram unânimes em dizer que o endividamento é o menor dos problemas provocados pela compulsão em jogos. A doença não é nova, mas a era digital implodiu as paredes físicas das casas de apostas e colocou os gatilhos na palma da nossa mão.

É urgente combater o fenômeno. A Copa do Mundo de 2026 escancarou o problema, que começou a se agravar na pandemia. O governo federal tem respondido: restringiu a publicidade no meio do torneio, proibiu que se venda as apostas como meio de investimento – ideia equivocada, mas que já conquistou 20% da população –, criou a plataforma de autoexclusão do CPF para cadastros em bets legalizadas e proibiu o cadastro de beneficiários do Bolsa Família.

Mas é preciso fazer mais. Tem que ampliar a fiscalização, especialmente em cima dos sites ilegais, e direcionar mais investimentos para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), unidades que hoje tratam os jogadores compulsivos que buscam o SUS. Quem sabe acabar com a propaganda, como no caso dos cigarros, e proibir a estratégia das empresas que premiam quem leva novos apostadores para suas plataformas. Esse foi mais um dos pontos-chave revelado pela pesquisa: as entrevistadas mencionaram o poder dos microinfluenciadores, como lideranças comunitárias ou amigas e parentes que recomendam as bets como opções seguras, uma força que fica ofuscada pela atuação dos influenciadores famosos, com milhões de seguidores.

O tema deve aparecer nos debates eleitorais. Vamos ver quem são os defensores da família que vão comprar essa briga.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Obrigada por ler até aqui! Quem apoia a Matinal tem acesso à íntegra da Tudo É Gênero, com outras análises, dicas de leituras e filmes e uma curadoria de notícias sobre temas relacionadas a gênero e suas intersecções. Quer acessar agora? Apoie e leia hoje mesmo!