Aprender a não negociar o inegociável
Uma calça de abrigo cinza, o rosto coberto por uma camiseta vermelha e o torso nu. O “Gostoso da Paulista” já virou fantasia de Carnaval e apareceu em diversos atos pró-Lula Brasil afora. Se fosse uma mulher, provavelmente seria presa por ato obsceno.
Foi o que aconteceu com Indianarae mais de uma vez. Ativista do movimento trans desde os anos 1990, ela foi candidata a deputada estadual pelo PT no Rio de Janeiro neste ano. Na ficha do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), declara-se como pessoa trans e é uma das primeiras pessoas no Brasil a retificar o documento de identidade para o gênero não-binário. Para Indianarae, que já foi Sofia, a identidade de uma pessoa está além da genitália e pode estar justamente na transição. “Somos além de definições corporais. Somos, existimos, vamos além, e podemos retornar, voltar atrás e começar tudo de novo”, já declarou.
Antes de poder usufruir do nome social, direito que ajudou a conquistar, sofreu muito com as negativas de quem se recusava a tratá-la pelo pronome feminino, como preferia à época. Tentar vencer pela palavra já não adiantava mais. Decidiu, então, um novo golpe: durante um protesto, tirou a blusa e deixou à mostra os seios de silicone. Foi presa.
Touché.
A decisão dos policiais de prendê-la era a legitimação que buscava: se era homem, como insistiam seus detratores, não haveriam de algemá-la. Com o torso nu, teve o mesmo destino de tantas outras mulheres que ousaram fazer topless na rua e acabaram levadas pela polícia – apesar de a legislação brasileira não especificar quem pode ou não ficar sem camisa em via pública.
Por que corpos trans incomodam tanto?
Um dos alvos preferidos de aliados e eleitores da família Bolsonaro é Erika Hilton (PSol-SP), mulher trans que foi reeleita neste ano como a deputada federal mais votada da história da Câmara dos Deputados – e também uma das mais xingadas pela tropa digital bolsonarista.
Enquanto essa gente desalmada se recusa a chamá-la pelo pronome feminino e faz troça com sua identidade de gênero, Erika esteve à frente de uma das maiores vitórias da classe trabalhadora na história do Brasil: a aprovação do fim da escala 6X1, pauta levantada por Rick Azevedo (Psol-RJ), homem negro e gay, vereador no Rio de Janeiro e eleito deputado federal nestas eleições.
Imagine o que mais Erika poderia fazer se não tivesse que perder tanto tempo respondendo a ataques transfóbicos…
Logo após o primeiro turno, o Ministério Público de São Paulo entrou com uma Ação Civil Pública contra Eduarda Campopiano (PL-SP), deputada estadual eleita, após uma publicação referindo-se à Erika como “homem biológico”. Para o promotor, a mensagem de Campopiano “caracteriza verdadeiro discurso de intolerância, ódio e menosprezo, que cria mais preconceitos”.
Talvez uma das lições mais valiosas dessa virada histórica do Lula nas urnas seja a de que não se pode mais tolerar o intolerável. Ao final do segundo turno, o TSE deu mais um passo nessa direção: agressores de mulheres terão a ficha tão suja como a de um político corrupto.
Das urnas dos Estados Unidos, mais um sopro de esperança: a vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato incluiu a eleição da primeira mulher negra a governar um estado, Keisha Lance Bottoms, entre outros representantes de minorias políticas.
Não podemos mais deixar que negociem o que é inegociável. Racismo, homofobia, transfobia, misoginia, xenofobia, capacitismo não é liberdade de expressão, tampouco piada. E os agressores, em vez de eleitos, precisam ser responsabilizados.
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