Boa noite pra quem?
O velho golpe do “Boa noite, Cinderela” ganhou novos requintes de crueldade na era digital. Não basta dopar a vítima e abusá-la. Gravar e compartilhar o abuso também já não é suficiente. Os agressores se reúnem em fóruns online para dar dicas de quais substâncias são mais eficazes, qual o melhor horário para sedar a mulher – muitas vezes sua companheira – e como evitar deixar rastros. Alguns vendem o conteúdo.
Se você buscar por “eyecheck” no Google vai encontrar recomendações sobre tratamento oftalmológico. Mas o termo tem outro significado no universo da pornografia, conforme reportagem revelada pela CNN World em março deste ano. Só no site Motherless, havia mais de 20 mil vídeos disponibilizados por usuários e classificados como “sleep content”.
São palavras usadas para identificar vídeos em que mulheres dopadas são violentadas. O “eyecheck” se refere ao teste feito pelos agressores para provar que elas estão desacordadas: eles aproximam a câmera dos olhos da vítima e levantam uma das suas pálpebras.
Agora pensa no sangue frio desse homem que dopa a mulher secretamente, espera ela apagar, abre a câmera, puxa as suas pálpebras, violenta a mulher, depois vende o vídeo para estranhos ou compartilha o conteúdo com seus amigos.
Gisèle Pelicot, hoje com 73 anos, foi dopada e estuprada por quase 10 anos. Em dezembro de 2024, 51 homens foram condenados em um julgamento histórico na França. Pelicot abriu mão do anonimato para dar visibilidade ao risco de as mulheres sofrem dentro de suas próprias casas, ao lado de seus companheiros.
O caso ficou famoso, mas está longe de ser isolado. No mundo inteiro, mulheres são vítimas dessa armadilha nojenta e brutal. No final de julho, a operação Somnus da Polícia Federal prendeu dois homens suspeitos de praticar esse crime no Brasil. Um deles, de 29 anos, foi preso em São Leopoldo e teria sedado e estuprado a irmã e uma prima, ilustrando o perfil majoritário dos abusadores: um homem das suas relações íntimas.
Como se não bastasse lidar com o medo dos riscos que corremos acordadas, temos que conviver com a possibilidade de ter sido vítima de uma violação e sequer ter ciência do ato.
A sensação que eu tenho é que a pior notícia sobre violência contra a mulher é sempre a próxima.
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