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✉️ O ópio do povo

Tudo É Gênero #48

✉️ O ópio do povo
A enxurrada de publicidade irresponsável de bets virou piada em programa do Porta dos Fundos com Marcelo Adnet | Reprodução

O ópio do povo não é o futebol

Quando o assunto é Copa do Mundo, a regra é clara: torcemos pelo Sul Global, pelos mais oprimidos, sempre contra os exploradores – e desde 2014, sempre contra a Alemanha. 

Nesta edição de 2026, a luta de classes tem nova roupagem. Na Copa das Bets, o rico cada vez fica mais rico, e o pobre cada vez fica mais pobre. No Brasil, a receita bruta total das empresas de apostas online chegou a R$ 37 bilhões em 2025. A prática já é a principal razão de endividamento da população, e as famílias mais vulneráveis são as mais afetadas. O de cima sobe, e o de baixo desce.

Não surpreende, afinal, a promessa de dinheiro fácil é ainda mais atrativa para quem vive apertado. E quando vem chancelada por estrelas do futebol, o fair play não tem vez.

Vini Jr., por exemplo, não descansa nem nos intervalos. Seu rosto estampa a publicidade de uma dessas bets. Mas ele não é o único. Já estamos acostumados com jogadores que nos dão alegria em campo, mas decepcionam fora dele.

Olha o Romário. Depois do tetra, entrou na política e acabou no partido de Jair Bolsonaro. Senador pelo PL-RJ, o baixinho não precisou tirar licença para ir à Copa deste ano: o modelo semipresencial adotado pelo Senado permite que o excelentíssimo centroavante passe boa parte do seu dia comentando os jogos na Cazé TV.

O que não está bem explicado é a sua aparição em uma publicação em colaboração com uma bet e sem identificação de publicidade. O Intercept Brasil é quem fez o alerta e lembra: entre 2024 e 2025, Romário foi relator da CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas no Senado.

Pode isso, Arnaldo?

Aliás, a Cazé TV é o caso mais emblemático dessa enxurrada de anúncios e patrocínios de apostas online que domina o futebol mesmo antes do Mundial. O canal foi comprado pela LiveMode em novembro de 2025 e mantém como sócio Casimiro Miguel, que empresta rosto e nome à marca. Sucesso absurdo, com mais de 35 milhões de inscritos no YouTube, a plataforma tem um poder de engajamento gigantesco – vocês devem ter visto a explosão de seguidores do goleiro do Cabo Verde, o Vozinha.

Acontece que essa força também está sendo usada para estimular o público a apostar, com comentários inclusive dos jornalistas, que chegam a citar as apostas com mais ou menos chances de ganhar. Único canal com os direitos de transmitir todos os jogos da Copa, a Cazé é patrocinada por mais de uma bet e acaba de entrar na mira da Secretaria Nacional do Consumidor, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O órgão investiga se estão sendo cumpridas normas como a divulgação de informações claras sobre os riscos envolvidos nas apostas. Bastam cinco minutos na Cazé TV para perceber que, enquanto pedem para “jogar com responsabilidade”, esquecem eles próprios de serem responsáveis.

As opiniões emitidas pela autora não expressam necessariamente a posição editorial da Matinal.

Obrigada por ler até aqui! Quem apoia a Matinal tem acesso à íntegra da Tudo É Gênero. Quer saber onde mais tem questões de gênero nesta Copa? Apoie e leia hoje mesmo!