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A mídia e o escorpião

Crônica sobre a síndrome de Lava Jato

A mídia e o escorpião
Composição: Fotos da Agência Brasil (1ª: autoria de Fabio Rodrigues-Pozzebom; 2ª: autoria de Lula Marques).

Prudêncio Final é estatístico e analista político. Segundo ele, há algo no ar. Pode ser apenas uma teoria da conspiração. Salvo se for uma intuição alertando para o perigo de o escorpião atacar novamente.

Todos conhecem a anedota do sapo e do escorpião.

O escorpião pediu uma carona ao sapo para atravessar um rio. Na metade do percurso, não resistiu à sua natureza e picou o sapo. Na manchete do jornal da aldeia saiu: “Escorpião não suportou pregação comunista”.

Manchete do UOL, braço digital da tradicional Folha de S. Paulo: Datafolha: Flávio se consolida e empata com Lula no 2º turno.

Onde está o problema? Notícia é notícia. Mais ou menos. O problema está no “consolida-se”. O jornalismo sempre tem como embutir a sua opinião.

O verbo dicendi, por exemplo, serve para isso. É o famoso "disse ele" colocado depois de fechar aspas para encerrar uma declaração. “O sapo era vermelho”, disse o escorpião antes de se afogar.

Alguns não se contentam com essa suposta neutralidade do verbo dizer. Então, pelo colorido da coisa, capricham no dicendi: denunciou ele.

Caldas Júnior, fundador do Correio do Povo, era adepto de um jornalismo mais descritivo, ainda que o pai dele tenha sido executado em Desterro, hoje Florianópolis, pelas forças de Floriano Peixoto. Em uma das polêmicas que não conseguiu evitar, disparou um dicendi original:

– Defecou ele.