Em Os irmãos Karamazov, obra-prima de Dostoiévski, o ancião, líder religioso e figura central do mosteiro em torno do qual a vida acontece, lembra para uma mulher, que busca a sua sabedoria e o provoca com suas dívidas, de um homem que lhe dizia mais amar a humanidade em geral quanto menos amava os indivíduos em particular. Talvez seja essa a marca do nosso tempo.
Vejamos a tese a partir dessa deliciosa tirada do escritor feita na obra sem alarde nem pompa, como fragmento na boca de um religioso atilado.
Aquilo que o polonês Zygmunt Bauman chamou de modernidade líquida talvez seja, mais rigorosamente falando, uma eternidade gelatinosa. Nada se consolida.
Nada tampouco flui. O amor pela humanidade pode ser a tradução de uma vaidade ética: o desejo de impressionar os outros impressionando a si mesmo.