Arquitetura é música feita com concreto. Não gosto de dizer que é música concreta, porque isso leva à ideia de um estilo musical. Ela é concreta no sentido que o arquiteto compõe com materiais o que o compositor faz com notas. Cada um a seu jeito busca harmonias ou dissonâncias que toquem o sensível, que agradem olhos ou ouvidos.
É um processo de organizar, dar sentido, compor com elementos pré-definidos uma totalidade que responda à vontade do compositor ou arquiteto de acrescentar ao mundo dos sons ou da cidade algo que faça sentido para as pessoas. Chamamos isso de arte, eu sei, mas não custa, de vez em quando, a gente lembrar da sua importância. Ainda mais a arquitetura, que parece que anda esquecida do seu papel na saúde da nossa subjetividade.
Basta ver a facilidade com que demolimos obras representativas do nosso acervo arquitetônico para se dar conta dessa doença. A última agressão à casa da família Lia Pires me lembrou Hitler queimando quadros e livros ou, mais recentemente, o Estado Islâmico. Não foi um desmonte cuidadoso. Não, a casa foi golpeada para não deixar rastros de memória, toda ela abatida por uma escavadeira em poucas horas.