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✉️ Brizola e a Legalidade

Newsletter do Juremir #226

✉️ Brizola e a Legalidade

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Brizola e a Legalidade

Conta-se que depois do último levante gaúcho, o levante de Leonel pelo rádio, criou-se um estranho ritual. De cinco em cinco anos, um jornalista, como se estivesse tendo a mais original das ideias, faz uma lista de nomes de remanescentes, elimina com pesar os falecidos, e vai ao encontro dos sobreviventes para colher, com entusiasmo, seus depoimentos já dados outras vezes com maior ou menor entusiasmo. Cada data redonda parece, no entanto, reanimar as memórias esburacadas pelo tempo fazendo-as reviver os episódios com as mesmas piadas, um novo brilho no olhar e algum esquecimento ou uma pequena imprecisão, o que imediatamente se torna uma sensacional descoberta.

Aos 50 anos, não poderia ser diferente. O ritual, no centenário, terá, por razões naturais, de adaptar-se. Conta-se que a cada vez nasce um livro e aumenta-se algum ponto nessa cadeia imemorial de lembranças e de contos. Conta-se que tudo já se contou sobre tal façanha e que, portanto, é imperativo tudo recontar acrescentando ou retirando detalhes, apagando erros e cometendo outros, até que tudo se converta numa polifonia, as vozes de um tempo, num emaranhado, redescobrindo nomes, esquecendo outros, numa novela da história, um fingimento, o escritor como historiador, o historiador como escritor, o repórter como contador de uma história contada como História, a história contada como história, narrativa de narrativas, apenas um pouco de história, somente um pouco da história, até a próxima. Eis o destino do homem. Ser revisitado pelo tempo lento e voraz, pela re-petição das pautas jornalísticas e por essa estranha obsessão dos homens por datas chamadas de redondas. Para sempre Leonel. Aquele que fora Itagiba.

E Leonel Itagiba. No cenário internacional, Leonel Brizola. No imaginário popular, apenas Brizola. Um sobrenome carregado como um nome. Um epíteto servindo de sobrenome. Brizola da Legalidade. Conta-se que a palavra indígena itagiba significa braço forte e duro como a mais dura das pedras. Conta-se que o nome Leonel vem do latim e quer dizer pequeno leão. Conta-se que o termo Moura diz respeito a uma brava localidade de Portugal, cujo primeiro nome, na época da ocupação romana era Arucci ou Civitas Aruccitana Nova, tendo sido mudado pelos mouros para Al-Manijah e, finalmente, chegado ao seu nome derradeiro por causa da lenda da “moura Salúquia”, história de uma princesa moura que abriu as portas da cidade para um grupo de cavaleiros vestidos como muçulmanos, pensando ser um deles o seu noivo.

Eram cristãos. Tomaram o lugar. Salúquia jogou-se da torre onde se encontrava. A cidade tomou seu nome. Quer dizer, seu apodo. No começo do século XVIII, Moura permaneceu sob o cerco espanhol durante dois anos. As fortificações foram quase devastadas, mas Moura não caiu. Conta-se que o portador desse sobrenome é dotado de muita energia, como dona Oniva, e tem espírito aguerrido. Conta-se que o nome Brizola, de origem italiana, significa grisalho e que quem o carrega já nasce maduro.

Conta-se muito quando se tem tempo e gosto. Como esta história, com tantas vozes, de um homem, um político, sua trajetória e seu(s) movimento(s). História, como contou Joaquim Felizardo, do “último levante gaúcho”. Último levante gaúcho da era do rádio. Primeiro grande levante de um homem impondo o seu nome. Leonel “Itagiba” de Moura Brizola. O nome da voz. A voz da Legalidade.