
Casa dos espíritos e dos rancores
A Amazon Prime exibe a série A Casa dos Espíritos, em oito capítulos, adaptação da obra literária de Isabel Allende, cujo nome aparece nos créditos como produtora executiva, certamente para valer como selo de credibilidade e de fidelidade ao original. A crítica dita especializada, de resto, está louvando justamente a correspondência entre o livro e a série.
Mesmo assim, a exemplo do que ocorre com A Odisseia, há ganhos e perdas na passagem de um registro para outro. Ganha-se imagem em alta definição e perde-se a liberdade de imaginar rostos e situações. No caso do épico de Homero, Christopher Nolan vem sendo desancado por ter reduzido o protagonismo das mulheres e por ter transformado Ulisses num arrependido.
Já A Casa dos Espíritos, apesar dos elogios à força das cenas, escorrega um pouco na caricatura. O vilão da história – mineiro apaixonado, latifundiário estuprador de empregadas e senador reacionário – torna-se a cada capítulo mais previsível, tendo um esperado ponto de meia-virada no último capítulo, o que salva o todo. Talvez seja o que a série tem de mais realista. Na famosa Casa da Esquina, onde vivem os personagens ricos da saga (a família do senador Trueba), há mais fantasmas do que espíritos.
É incrível o quanto se pode acumular ressentimento ao longo de gerações de uma família. A figura mais caricatural da série é o delator, nascido para a função, dedo-duro desde criança, talhado por natureza para entregar os outros, servir de capacho e tornar-se útil aos opressores. Nesse homem, chapado, não há nuances, muito menos arestas. Tudo é plano. No capítulo final, porém, ele mostra suas motivações pela dor acumulada.
Impossível desprezar a força das mulheres, da avó que falava com os mortos à neta que se apaixona por um colega universitário marxista decidido a fazer a revolução por pão, terra e liberdade.
O fantasma mais visível na série inspirada no livro de Isabel Allende é o das utopias latino-americanas, com jovens determinados a morrer pela pátria e governantes mortos por mudanças que os donos do capital não deixariam acontecer. A partir do quarto episódio tem-se a ligeira impressão de que se começa a encher linguiça. É o problema das séries. Talvez por isso eu não tenha ainda encarado os 66 capítulos de Conto da Aia.
Em Celeiro em Chamas, o estilo único de William Faulkner em uma passagem faz pensar no que tem movido o mundo, “por entre o outro cheiro, constante, o cheiro e o senso, de medo um pouco apenas, porque mais que nada de desespero e tristeza, o velho, ímpeto atroz do sangue”.
A América Latina não tem sido outra coisa: medo, desespero, tristeza e ímpeto atroz de sangue. Cada época com suas medidas próprias de cada um.
Séries alcançam maior respeitabilidade do que novelas. Nem sempre, no entanto, são muito diferentes. O esquema narrativo pode ser o mesmo: um herói, uma mocinha, um antagonista e uma injustiça a ser vingada.
De Aristóteles para cá, a teoria da narrativa tem procurado novos modelos para louvar. Na hora das coisas sérias, contudo, vale a cartilha.
Vez ou outra, vale falar com mortos. A Casa dos Espíritos e Quem Ama Cuida, atual novela das nove da Rede Globo, usam esse artifício. É muito menos convincente do que acordar transformado numa barata repelente.