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Com Dom Segundo Sombra em Paris – Parte II

Sonhos de pampa lendo Ricardo Güiraldes à beira do Sena

Com Dom Segundo Sombra em Paris – Parte II
Dom Segundo Sombra e seu pupilo. Imagem gerada por inteligência artificial.

Comecei a ler a obra-prima de Ricardo Güiraldes naquele café da Rive Gauche como se ouvisse o minuano soprar e a me lembrar da minha infância e adolescência. Eu havia tropeado e trabalhado em muitas lidas do campo com meu pai e comprovado que ele sabia tudo que um gaúcho precisava saber para se virar no cotidiano: domava com gosto, carneava com destreza, curava bicheiras do gado, castrava, esquilava ovelhas, laçava com precisão, amansava bois para o arado, plantava no momento certo, conhecia as árvores da mata original e fazia de tudo para protegê-las. Cumpria belo papel no meio de um rodeio, conhecia atalhos pelos campos que me levavam a crer que se tornara vaqueano na juventude, da qual pouco falava, e ainda se saía muito bem como pedreiro, carpinteiro, alambrador e jóquei em carreiras de cancha reta. Tinha gosto em preparar um parelheiro nos seus galpões. Quando jogava truco, meu pai fazia uma gritaria impressionante. Adorava um trago de cachaça, um vinho tinto e um baile para dançar com desenvoltura.

Era sobre meu pai aquelas lembranças em torno de Dom Segundo.

A tarde começou a cair cedo em Paris, conforme a sina da estação, dando a essa cidade, onde eu havia passado alguns dos melhores anos da minha vida incerta, o ar melancólico que a recobre próximo à chegada do inverno. Eu me afundava cada vez mais nas peripécias do gauchinho de Güiraldes, o menino “guacho” na sua formação como tropeiro e ginete pelos campos rudes da Argentina. Escrito em 1944, Dom Segundo Sombra sempre me parecera ao mesmo tempo romance de iniciação e etnografia de um tempo que já desaparecia, quando foi resgatado pela perícia de antropólogo de um escritor, determinado a realizar uma operação de salvamento arqueológico.

Minha cabeça estava povoada de fantasmas. O café enchia-se de gente. Chuviscava, enfim, na cidade-luz, multiplicando reflexos na água sobre o betume negro das calçadas que me faziam pensar em pirilampos do campo. Eu via meu pai montado num alazão, protegido por sua capa reiuna, herança dos seus tempos de militar, me olhando do trono do seu cavalo como se fosse um monumento ao homem mais simples da campanha. Eu havia cometido muitos erros em nossa primeira grande tropeada: ao abrir uma porteira, vendo a água correr cristalina num arroio, larguei a rédea no chão e corri para matar a sede. A tropa seguia em frente, um cavalo relinchou e a minha égua colorada tão mansa saiu a galope, extraviando os arreios e a carne que eu levava embaixo dos pelegos, me deixando a pé.