Porto Alegre não para e, ao mesmo tempo, não perde o seu jeito de cidade de dimensão humana. Arrastei uma faringite comigo (devidamente testado para Covid e Influenza) na tentativa de seguir o ritmo da capital na Semana Santa. Quanta coisa! De John Malkovich no Simões Lopes Neto a Alcione no Araújo Vianna, terminando com os velhos guerreiros Omar Ferri e Jair Krischke no domingo de manhã, na Redenção, contando a história dos golpes de Estado na América Latina. Porto Alegre pulsa, a vida não para.
Alcione toma cafezinho durante o show enquanto, mesmo sentada, solta a voz nas alturas. Voz, não, vozeirão. Com ela, o samba não morre e a gente chora pelas cabrochas que não desfilaram para nós e foram imortalizadas por Benito di Paula, com quem a cantora trabalhou “na noite de São Paulo”. Se precisar, “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Ou chora!
Essa breve observação da cantora sobre Benito evoca boemia, madrugadas de neblina, São Paulo que nunca dorme totalmente, vozes quentes, imaginários do samba e do amor, gente vivendo em noites encantadas, um tempo que se eterniza na música revivido como uma boa lembrança. Ir a um show De Alcione tem algo de antropológico, expedição à alma de um tempo, de um jeito de ser brasileiro, de uma cultura dentro da cultura geral. Eu me sentia assim embalado quando ia aos shows da grande Ângela Maria.
Grande dama do samba, Alcione recebe fãs no palco para fotografias, repete alguma piada e lembra todas as letras, trata o público como se o recebesse na sala da sua casa, em família, com leveza e hospitalidade, diva e senhora comentando a vida, lembrando dos amigos, dando ordens.