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Do RS ao RJ, dois pianos tocam a nota do desprezo à escola pública

Não é só a presença inusitada de um instrumento musical de alto valor, deteriorado, que une duas escolas separadas por mais de 1,5 mil quilômetros de distância

Do RS ao RJ, dois pianos tocam a nota do desprezo à escola pública
Foto: Ângela Chagas / Arquivo Pessoal

O ano era 2023 e eu fazia pesquisa de doutorado em escolas de Ensino Médio da rede estadual do Rio Grande do Sul. Cheguei a uma das instituições de ensino na hora do recreio, havia uma agitação das conversas adolescentes, mas o som da música chamou a minha atenção. Perguntei de onde vinha e indicaram a biblioteca. Entrei naquela sala escura, com livros empoeirados espalhados por todo o canto e, ao fundo, deparei-me com o inesperado: um jovem negro de cabelos raspados tocava em um piano acústico em ruínas. 

Corta para 2026. Já professora da UFRJ, visitei uma escola de Ensino Médio da rede estadual fluminense para participar de um encontro com estudantes, promovido pelo Fórum Estadual de Educação do Rio de Janeiro (FEERJ). Ao ingressar no auditório do evento, a surpresa: um velho piano acústico disposto na entrada do espaço. Com estrutura em madeira, o instrumento estava parcialmente destruído pela força do tempo e da ausência de manutenção. Um piano em ruínas, tal qual o primeiro.

Circulando pela instituição de ensino e conversando com estudantes e professores, percebi que não é só a presença inusitada de um instrumento musical de alto valor, deteriorado, que une duas escolas separadas por mais de 1,5 mil quilômetros de distância. Em ambos os espaços constatei a revolta com um projeto educacional de abandono da educação pública. 

Foi exatamente esta a expressão – "abandono pelo Estado" – usada por um grupo de alunos do terceiro ano do Ensino Médio para descrever a situação da escola em que estudam no Rio, durante a atividade promovida pelo FEERJ. Entre os problemas relatados está o calor excessivo em salas de aula sem ar-condicionado e ventilação adequada, manutenção precária dos espaços, biblioteca e laboratórios desatualizados e sem uso. Isso para não falar da falta de professores e demais profissionais da educação.