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✉️ Enfermaria nº 6

Newsletter do Juremir #228

✉️ Enfermaria nº 6
Anton Tchekhov / Domínio público


OFERECIMENTO:

Enfermaria nº 6

Nunca sabemos como vamos reencontrar um livro lido na juventude. A passagem do tempo altera o nosso paladar, o nosso apetite e a nossa capacidade de interpretação. Aquilo que antes parecia decisivo, esmaece. Aspectos que se apresentavam como secundários, tornam-se essenciais. Ler em aviões também modifica a maneira de ver o que está sendo lido. Tudo fica mais urgente. Há uma pressa que se multiplica com o tempo de viagem. Um grande livro, porém, apaga os sinais circunstanciais e triunfa sobre tudo.

Num dos seus mais famosos contos, Enfermaria número 6, o russo Tchecov, que era médico, conta a história de um médico, responsável por um pavilhão psiquiátrico num hospital rastaquera de uma cidade ferrada, que negligencia o seu trabalho com base numa máxima radical: para que curar se as pessoas vão acabar morrendo mesmo? O que representa para a humanidade se um infeliz medíocre vive mais cinco ou dez anos? Só poderia dar errado.

Estoico, apaixonado por ideias e boas conversas, o médico só encontra um interlocutor à altura num dos internados no seu hospício miserável. Essa amizade não lhe dará bons frutos. Passará a ser visto como louco também e caírá vítima de amigos-inimigos ambiciosos. Acabará internado no hospital.

Tchecov publicou esse conto em 1892, dez anos depois de O Alienista, de Machado de Assis, a quem certamente não terá lido. Sintonia de gênios.

Quem talvez tenha tirado as lições mais extremas dessa ideia foi outro pensador sem limites, Cioran, que publicou um inquietante texto intitulado Do inconveniente de ter nascido. Se é para terminar mal, embaixo da terra, melhor seria nem começar. Quem começa, porém, quer, em geral, continuar. A vida é dotada de um mecanismo de autopreservação muito forte.

O médico da história de Tchecov desvalorizava a vida triste dos seus pacientes, mas queria gozar as alegrias de um bom papo intelectual e da leitura de um bom livro. Era a vida dos outros que lhe parecia inútil.

Certos políticos e outras autoridades lembram o médico da enfermaria número 6: desanimam ou tornam-se indiferentes diante da miséria humana. Mas não desistem de sentir prazer, de fumar um charuto cubano ou beber um uísque de marca. Se o mundo que administram os choca, afastam-se dele. Procuram prazeres que possam mantê-los bem vivos e longe do tédio diário.

Se o médico de Tchecov é confundido com louco e morre no hospício ao lado dos seus antigos pacientes, as doutas autoridades podem parar na cadeia por corrupção, mas não parecem aprender o sentido da dor dos outros. 

A diferença entre elas e o estoico doutor da novela russa é simples: são larápios. O médico era um espírito abarrotado de ideias fora do lugar.

Tchecov fez, ao mesmo tempo, uma crítica ao intelectualismo abstrato, às canalhices humanas e ao descaso das autoridades com os pobres deste mundo. Mostrou que o saber desencarnado é pura ignorância da vida real.

Russos como Dostoievkski, Tolstói e Tchecov tinham uma obsessão: a clareza. Quando foi que isso se perdeu na literatura? Terá sido com Joyce?