
Escolhas e obrigações eleitorais
Já perdi emprego por pressão da esquerda. Já perdi emprego por pressão da direita. Meu anarquismo epistemológico (ver Paul Feyerabend) sempre aborreceu meus críticos. Acredito piamente que a obrigação de um jornalista é fiscalizar quem estiver no poder e defender a democracia.
Adotei há muito uma divisa do primeiro editorial de Caldas Júnior, o fundador do Correio do Povo, filho de um juiz maragato executado por tropas de Floriano Peixoto em Santa Catarina: “Emancipado de convencionalismos retrógrados e de paixões inferiores, procurará [o Correio do Povo] esclarecer imparcialmente, apreciando com isenção de espírito os successos que se forem desenrolando e os actos dos governantes para censural-os quando reprováveis ou aplaudil-os quando meritórios”. Criticar e elogiar.
Se um governo faz aprovar uma lei que concede dois dias de folga por semana aos trabalhadores da base da pirâmide social, eu aplaudo, como jornalistas humanistas aplaudiram a abolição da escravatura, em 1888.
Assim, na eleição deste ano, assumi posição contra a candidatura de Flávio Bolsonaro por ver nele um representante de um clã golpista, o qual, há menos de quatro anos, tentou um golpe de Estado contra a posse de Lula, o que Flávio confirmou ao não aceitar o resultado da sua acachapante derrota por mais de quatro milhões de votos e querer a anulação do pleito.
Finda a disputa eleitoral, o trabalho tem por foco fiscalizar, o que não significa apenas criticar, mas elogiar possíveis acertos e escolhas.
Um ponto a defender: investigações exaustivas de todos os suspeitos e acusados nos três poderes. A sociedade precisa de luz e de esclarecimento.
Vi muitos jornalistas consagrados assumindo posição contra a ameaça à democracia e contra os valores da extrema direita, o que nada tem a ver com partidarismo ou com ideologias dogmáticas. Independência é exatamente isso. Poder tomar posição nos momentos em que a consciência grita: atenção.
Como se diz agora, a luta da extrema direita nunca foi sobre combate à corrupção. Tem muito mais a ver com posturas de caráter comportamental.
Um jornalista independente, assim como um intelectual, tem como missão defender a ciência, a verdade factual, a democracia e a diversidade.
Foi o que, ao longo do tempo, ensinaram Émile Zola, o escritor que acusou a França de armar para condenar um oficial judeu inocente, e Edgar Morin, o jovem que, aos 20 anos de idade, entrou na resistência armada ao invasor nazista do seu país e, aos 30 anos, rompeu com o Partido Comunista Francês para não ter de mentir sobre a União Soviética (URSS).
Sair da zona de conforto para defender o socialmente essencial, eis a missão do jornalista e do intelectual. Dispor-se a criticar ou elogiar mesmo sabendo que desagradará a uns e outros e criará muitos inimigos.
Expor-se sem heroísmo nem recompensa. Em tempos de redes sociais, o que não falta são insultos, ofensas, ataques, deboches e crueldades.
A história nunca para. Ela exige escolhas e engajamentos que deixam marcas. Sobretudo, não perdoa omissões. Cada cidadão tem o direito e o dever de situar-se. Que o leitor releve a gravidade do tom adotado.
Às vezes, não há tempo para ser leve, agradável e divertido.
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