
Feira do Livro na praça outra vez
Fui assistir à abertura da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre, na última sexta-feira. Na verdade, passei a tarde na praça da Alfândega vendo os primeiros movimentos de uma nova edição do mais importante evento cultural do Rio Grande do Sul, as pessoas chegando, escritores passando, expositores atarefados, as primeiras vendas, entrevistas, efervescência, encontros, abraços, lembranças de outras edições, de gente que já se foi.

Na sessão solene de abertura, as mulheres dominaram com brilho: Roseni Kohlmann, primeira mulher a dirigir a Câmara Rio-Grandense do Livro, que organiza a Feira, lembrou de quando o pai a levava com as irmãs à praça cheia de livros. Martha Medeiros passou o bastão para a nova patrona, Heloísa Pires Lima, a primeira mulher negra a assumir esse posto. Tudo isso foi precedido pela exuberante voz da jovem cantora gaúcha Luísa Barbosa.

Heloísa nasceu em Porto Alegre, foi criada até os nove anos no Passo da Areia e depois foi com a família para São Paulo, onde estudaria psicologia e ciências sociais. A literatura infantojuvenil acabaria por ocupar as suas horas, com palestras e viagens, especialmente a partir do lançamento, em 1998, pela Companhia das Letrinhas, de Histórias da Preta.

O patronato na Feira do Livro de Porto Alegre não deixa de ser um reencontro com a sua terra natal. No seu discurso, Heloísa Pires Lima arrancou aplausos ao dizer que não adianta estimular a leitura se os livros forem racistas. Uma forma de racismo literário é invisibilizar os negros.
Fiz a recorrida dos estandes sem pressa, que carinhosamente chamamos de barracas. Espiei capas, edições que não conhecia, novidades, clássicos, balaios. Há barracas que ocupam sempre os mesmos lugares, como a da L&PM, uma tradição. Outras mudam, como a da Sulina, que saiu da Rua da Praia para o corredor de entrada, no vão da 7 de Setembro, para os lados do Santander Cultural, onde pude ver meu 50º livro exposto, Uma biblioteca no Pampa.
Aí me perguntei filosoficamente: como foi que cheguei a 50 livros? Só posso explicar esse excesso com a minha velha piada: não tenho filhos, não tenho cachorro nem gato, não tenho carro, não tenho casa na praia nem na Serra, não tenho sítio e muito menos caixa de ferramentas. Vivo ocioso. Escrevo livros. Como não me contenho, acabo por publicá-los. Pobres amigos.
Na orelha, único texto com garantia de leitura, escrevi que eu mesmo coço a minha orelha a cada vez e ano: “O leitor encontrará neste livro um tanto de memorialismo, outro tanto de ficção, outro tanto ainda de autoficção. Por fim, entenderá que classificadores terão problemas para catalogar este pequeno volume. Talvez fosse adequado chamar este exercício literário de Um delírio. Houve um pouco disso no hospital e outro pouco depois ao repisar cada dia internado e ao pensar nesse passado que nunca vai passar por constituir o meu imaginário, a minha identidade, meu ser”.
O livro em questão começou a nascer em março de 2020, quando fui internado pela primeira vez com Covid-19. Com ele, estou na Feira todo dia.
Foi um prazer conversar com a minha ex-colega e orientanda Juliana Tonin e com o poeta Armindo Trevisan, que, nonagenário, continua acordando cedo para fazer o que sabe e gosta: escrever. Vem livro novo por aí.