
Getúlio sempre
Agosto, mês de cachorro louco, pensou Getúlio Vargas, desviando os olhos do rosto angustiado do ainda jovem ministro Tancredo Neves, sentado à sua esquerda. Mês do delírio total do Corvo do Lavradio, do “mar de lama” que parecia inundar o Palácio do Catete e de vento norte na campanha — a “savana verde” gaúcha que abandonou para mudar o Brasil e da qual, no fundo, nunca saiu. O presidente revisou mentalmente a carta que releu antes de entrar com seus ministros no Salão dos Banquetes para a reunião de crise e suspirou. Agosto, mês de cavalo magro entregar a carcaça nos campos de São Borja, cobertos de geada ao amanhecer.
Agosto, permitiu-se o lugar-comum tão ao gosto de seu pai, mês de desgosto. O velho general Manuel do Nascimento Vargas, veterano da Guerra do Paraguai e dos combates no seu bravo Rio Grande, que só morreu à beira dos cem anos de idade, quebrava a aba do chapéu e previa, numa mescla de sabedoria e de resignação: “Esse não passa de agosto”.
Em 3 de outubro de 1930, quando tudo, de fato, começou, com a deflagração da revolução, liderada por ele, que mudou o Brasil, Getúlio tinha passado um dia calmo, despachado com o seu secretariado do governo do Rio Grande do Sul, jogado pingue-pongue e iniciado um diário. “Deve ser para hoje às 5 horas da tarde. Que nos reservará o futuro incerto neste lance aventuroso?” Havia despistado o secretário da Fazenda, que acumulava interinamente a pasta do Interior, dizendo-lhe que o Rio Grande “acompanharia um movimento de ordem geral”. Despistar, essa era a sua grande arte. Essa seria a palavra que os inimigos mais brandiriam contra ele ao longo dos anos. Naquela tarde da grande virada, tudo desfilava na sua mente com a clareza das grandes dúvidas e a certeza dos enormes riscos: “Quatro e meia. Aproxima-se a hora. Examino-me e sinto-me com o espírito tranqüilo de quem joga um lance decisivo porque não encontrou outra saída digna para o seu Estado. A minha sorte não interessa e sim a responsabilidade de um ato que decide o destino da coletividade”. Tudo que os seus adversários explorariam já se encontrava ali: o jogador, o articulador, a raposa, o enxadrista.
Agosto, tempo de mais uma “peleia” na vida de Getúlio Vargas. Também naquele distante 3 de outubro nenhuma ilusão o dominava. O medo de uns, a hesitação de outros, tudo já o empurrava a lançar a grande pergunta: “Não terei depois uma grande decepção?” Toda a sua visão de mundo estava ali: a capacidade de antecipação, o cálculo global das ações e das expectativas de todos os envolvidos, a possibilidade da traição, a sua permanente divisão entre o novo e o velho, a renovação e a conservação: “Como se torna revolucionário um governo cuja função é manter a ordem?”. Agosto, mês de lembranças. Naquele primeiro dia de um novo homem, de um novo Brasil, o primeiro dia da Era Vargas, ele, o homem que agora soçobra na tempestade política, perguntava-se: “E se perdermos? Eu serei depois apontado como o responsável, por despeito, por ambição, quem sabe?” Ao longo das décadas, o seu espírito ponderado e conciliador seria confundido com o de um hesitante.
Naquela tarde de primavera, 3 de outubro de 1930, em Porto Alegre, cravou na pedra morna do papel uma frase para entrar na história: “Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Agosto, mês de cachorro louco. Sei o que todos eles desejam. Posso identificar a posição de cada um dos meus ministros sem nenhuma sombra de dúvida, considerou silenciosamente o presidente. Sei quem me acompanharia na resistência, quem estaria disposto a morrer comigo e quem me proporá, com floreios, entregar as rédeas e apear deste cavalo cansado. Já comi muita carne na vida, não preciso mais disto. Mas não sairei daqui humilhado. Estou velho demais para ser pisoteado por pata de matungo e por esses leguleios da UDN. Por mais que os milicos e a cachorrada do Lacerda imaginem o contrário, ainda posso dar cartas e jogar de mão.
Passava bastante da meia-noite. Já se vivia a madrugada de 24 de agosto de 1954. No salão de refeições dos barões de Friburgo, primeiros donos do Catete, transformado em sede da Presidência poucos anos depois da implantação da República, o ministério estava quase completo. Faltava apenas Vicente Rao, titular das Relações Exteriores, em viagem a São Paulo. Getúlio, impassível no seu terno azul-cinza, examinava as feições de cada um com o seu tradicional ar enigmático. Parecia realmente ausente. Nada que pudesse chamar a atenção de alguém, pois sempre estivera à espreita, como que alheio para melhor observar e intervir no momento preciso. Segundo o escritor Menotti del Picchia, que lhe estudou a fisionomia, Vargas tinha “o olhar periférico da mosca e mais uma supervisão das distâncias”. A abstração do seu olhar opaco era uma cilada perfeita: ninguém nunca sabia o que, realmente, estava focando, embora não desviasse o olhar. Contemplava vazios repletos de significados que só ele conseguia decifrar e dos quais tirava a sua imensa vantagem sobre os demais em cada situação.
Sentado à cabeceira da grande mesa, acompanhou, na extremidade oposta, o movimento inusitado de José Américo de Almeida, ministro da Viação, que se ergueu por alguns segundos, apalpou os bolsos e sentou–se de novo. A tensão refluía em ondas de falsa tranquilidade. Prevista para a manhã de 25 de agosto, a reunião, por sugestão do marechal Mascarenhas de Morais, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, foi antecipada pelo presidente, que decidiu, apesar da hora tardia e da fadiga de todos, pela sua imediata realização. A crise atingia o ápice. Buscou, com os olhos cansados, à direita, a figura de Osvaldo Aranha, que lhe pareceu, com sua cabeleira branca, quase épica, apesar da banalidade dos homens e do poder para quem, como ele, Getúlio Dornelles Vargas, já fora tudo na vida, mas tudo mesmo, conservador e revolucionário, ditador e democrata, oligarca e “pai dos pobres”, conspirador e vítima de conspiração, predador e presa.
Voltou a observar José Américo. Percebeu que, por trás das lentes fundo de garrafa, o velho leão da Paraíba estava com os olhos turvos. Osvaldo e Zé Américo eram, ali, os únicos companheiros que haviam feito com ele todo o percurso, desde a Revolução de 1930. Nem sempre estiveram em sintonia. Tivera muitos amigos-inimigos. Mas Osvaldo podia ser considerado um fiel. Zé Américo, ao menos duas vezes, havia tomado caminho próprio, denunciando, em 1945, numa célebre entrevista ao Correio da Manhã, o Estado Novo, regime cuja instalação, em 1937, o impedira de realizar o sonho de chegar à presidência da República. Amigos, embora oponentes em algumas épocas, estudavam-se enquanto a ansiedade dissimulada só aumentava. É bem verdade que Zé Américo aceitara renunciar ao governo da Paraíba, para o qual fora democraticamente eleito, e vir socorrer o velho parceiro, o ex-ditador, assumindo pela segunda vez, em plena tempestade política, a pasta de Viação e Obras Públicas. Getúlio sorriu. Mansamente. Sorriu-lhe. Na realidade, apenas esboçou o seu conhecido sorriso de esfinge. Como sempre, ninguém notou o que havia de profundo naquele traço, naquela fina superfície de simpática caricatura.
Osvaldo também saltara do barco, de maneira um pouco menos estrepitosa, duas vezes. A primeira em 1937, quando era embaixador nos Estados Unidos e, americanófilo e liberal, renegou o golpe que acabou com a breve democracia e impôs o Estado Novo ou Estado Nacional. Aranha havia jurado aos amigos norte-americanos que isso não aconteceria. Desmentido, pediu o chapéu. A correspondência de Getúlio não havia chegado a tempo de preveni-lo das necessidades de uma ditadura. A separação durou pouco. Passados o susto e o burro, voltou aos braços do amigo e do poder. Mais tarde, quando Coriolano de Góis, chefe de Polícia dessa mesma ditadura, também conhecido como Coriolano Goestapo, fechou a Sociedade dos Amigos da América, da qual Osvaldo Aranha tinha sido eleito presidente, a ruptura foi imediata: Osvaldo demitiu-se do cargo de ministro das Relações Exteriores. Nunca, contudo, combateu o homem e amigo Vargas.
Juntos – Getúlio, Osvaldo e Zé Américo – eram quase metade da história brasileira de metade do século XX. Havia, claro, um exército de homens que, desde o 5 de julho de 1922, com o levante do Forte de Copacabana, compunha com eles a legião dos rebeldes que se tornariam os novos donos do poder. Até certo ponto. Muitos ficaram, ou foram deixados, pelo caminho. Getúlio recordou–se de Siqueira Campos, um dos 18 do Forte, sobrevivente, junto com Eduardo Gomes, do levante de Copacabana, morto afogado, nas águas próximas de Montevidéu, quando voltava de uma reunião de conspiração, em Buenos Aires, no longínquo e sempre tão próximo maio de 1930. Mais sorte, Getúlio quase sorriu de novo, tivera outro tenente de muitas lutas, João Alberto, que se salvou do mesmo acidente nadando. Depois, quando Getúlio o nomeou interventor em São Paulo, contrariando o desejo local de um governante paulista e civil, João Alberto quase afogou o processo revolucionário.
— A situação agravou-se. Desejo conhecer a opinião de cada um dos senhores. Depois, decidirei o que fazer, anunciou o presidente, com voz grave e baixa, ainda mais lacônico que de costume.
A praxe era passar a palavra ao ministro da Justiça. A natureza da crise levou Getúlio a deixar Tancredo para mais tarde. Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, devia falar primeiro. Nesse momento, contrariando ordem expressa de nunca interromper uma reunião ministerial, Alzirinha, filha e secretária do presidente, irrompeu na sala, trazendo junto com ela a mãe, Dona Darcy, os irmãos, Maneco e Lutero, o marido, Ernâni do Amaral Peixoto, e o deputado e ex-ministro Danton Coelho. Outras pessoas, estranhas ao Conselho de Ministros, também se acomodaram. A situação, porém, era excepcional e ninguém se importou. Junto ao relógio-armário, um homem baixo não tira a mão do queixo. Getúlio falava pouco. Para fora. Para dentro, sua voz parecia nunca se calar. Analisava pacientemente cada elemento dado à sua observação. Reviu-se em 1930 derrubando a República Velha, com seus oligarcas do café, para inventar um Brasil novo. Apesar de distante, fez um gesto com a mão direita e o burburinho dissipou-se. Emanava uma força natural daquele homem pequeno e metálico, chamado de anão pelos inimigos mais vulgares, que impressionava qualquer um, inclusive os maiores e mais poderosos. Mesmo o presidente americano Franklin Roosevelt, num encontro em Natal, comentara: “É um gigante”.
— Vou ser muito franco, disse o general Zenóbio, acelerando a voz, já aos trancos, falando cada vez mais rápido, engolindo palavras e salivando. — Dos oitenta generais que servem no Rio e têm comando de tropa, com poder real de fogo, trinta e sete já assinaram um manifesto de apoio aos brigadeiros que se voltaram contra o governo e pedem a renúncia imediata do presidente. Vou ser muito direto, não vai dar para contar com a Marinha e com a Aeronáutica. De minha parte, posso assegurar que estou disposto a resistir. Tomei, na Vila Militar, providências para isso. Mas aviso, pelas responsabilidades futuras, a resistência vai provocar derramamento de sangue. Vai ser uma carnificina. Meus homens estão prontos para morrer lutando pela ordem e pelas instituições.
O trecho acima corresponde ao primeiro capítulo do meu livro intitulado Getúlio, publicado pela editora Record (2004).