
IA, criatividade e direito autoral
Jovem, inquieto e com formação em universidades importantes, o advogado gaúcho Guilherme Schwartsmann desdobra-se em várias atividades. Diplomado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, fez especialização no campo do direito em Stanford. Mora na Europa. Casado com uma francesa, atua profissionalmente em uma empresa dos Estados Unidos. Membro da Ordem dos Advogados de Nova York, interessa-se por inteligência artificial e audiovisual – é roteirista da série Caçador de marajás, da Globoplay, sobre o famigerado Fernando Collor de Mello, e produtor de cinema, com projetos exibidos nos festivais de San Sebastián e Rotterdam.
Ultraconectado com os tempos que voam – correr é coisa do passado –, ocupa-se com temas que fazem a cabeça de qualquer um girar. Na preparação da entrevista que Nando Gross e eu fizemos com ele para o podcast Pensando Bem, que roda aos sábados na FM Cultura, definiu os seus focos de interesse com a precisão de um bom advogado e a curiosidade de um filósofo do direito e da arte:
“Mais do que falar sobre ferramentas de IA, a ideia é discutir como a inteligência artificial está mudando conceitos como autoria, criatividade, identidade e confiança. Se antes a pergunta era ‘quem é dono de uma obra?’, a IA talvez nos obrigue a responder outra: quem governa uma identidade? Quem decide o uso da voz, da imagem e da personalidade de alguém — inclusive depois da morte? Como essas mudanças impactam cultura, negócios e a própria ideia de autenticidade?”
Não é de ficar tonto?
Tudo está mudando. O autor vai finalmente morrer? A noção de autoria da modernidade vai se esgotar? A IA acelera a criatividade ou produz uniformização? Pode-se assinar um texto produzido por IA? Ainda não aprendemos a utilizar adequadamente essas novas e revolucionárias ferramentas? Elas estimulam a experimentação ou a preguiça e a trapaça? Como proteger a propriedade intelectual e o direito autoral numa época em que manipular imagens e áudios tornou-se tão fácil e corriqueiro quanto bater papo com amigos? Como diferenciar humor de ataques à imagem alheia?
Leitor contumaz por influência dos pais – Gilberto e Leonor –, Guilherme Schwartsmann é, como se diz, cidadão do mundo. Quando conversamos com ele, estava suportando, com ajuda de um ventilador, o calor extremo do verão europeu, que os franceses chamam dramaticamente de canícula. A Europa não se destaca pelo uso de aparelhos de ar-condicionado. A canícula pode elevar as temperaturas acima dos 40 graus. Já peguei isso em Montpellier. Na Suíça, contou Guilherme, às vezes é preciso se refrescar em alguma farmácia ou hotel, embora nem todos tenham ar frio. É o continente da calefação.
Da tecnologia de ponta ao calor extremo, assim é a vida de um intelectual nestes tempos de emergência climática e vertigens provocadas pela inteligência artificial. Nem apocalíptico nem integrado, para usar as velhas categorias de Umberto Eco sobre pessimistas e otimistas em relação a tecnologias, Guilherme equilibra-se na análise complexa do vivido.