Eleição é como futebol: só termina depois do último ato, apito final, último voto contado. Mas os sinais são de que o jogo, vencido no primeiro tempo por Flávio Bolsonaro, começou a virar para Lula. Como se deu isso?
O tranco tomado despertou a esquerda. Não houve campanha no primeiro turno. Ninguém falava no assunto. Era um deserto de discussão. Lula estava de salto alto. Não quis debater com os adversários na televisão. As redes sociais pareciam não existir para o PT. Aí veio a porrada que sabemos.
Lula tomou consciência dos erros. Dobrou, mas não quebrou. Tratou de açular a sua tropa nas cordas. André Janones entrou em campo para mobilizar as redes sociais. Acabou o marasmo. Pela primeira vez, a esquerda ganhou da direita no mundo virtual. Dá para sentir o ronco digital a cada dia. Do fundo das redes sobe um urro que não para de crescer e de impressionar.
Nas pesquisas, a diferença começou a cair. Agora, a Vox Brasil, a única que acertou no primeiro turno, já dá Lula na frente do oponente.
Nas ruas o vento também mudou. Estudantes saíram de casa. A campanha de Lula mudou de mãos e de rumo. Parou a autolouvação passadista. Entrou em cena o futuro. Lula passou a falar do que conta para a realidade social.
Um aliado, que fora oponente até pouco tempo antes, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, botou em votação o fim da jornada 6 por 1. Até Flávio Bolsonaro foi obrigado a votar a favor do que sempre foi contra. Golaço.
As massas uivam, as redes tremem, as ruas balançam. A campanha política, enfim, silenciou o STF. Deu-se um tempo para as fofocas.
Lula abriu as torneiras da máquina. Por caminhos não necessariamente recomendáveis, fez coisas certas: corrigiu o Bolsa Família, acenou com ajuda a endividados e microempresas, proporcionou a vitória dos dois dias de folga por semana para os trabalhadores, saiu da zona de conforto.
Os candidatos concederam entrevistas à Rede Globo. Receberam tratamentos diferentes. Flávio Bolsonaro almoçou com os donos da casa.
Lula ganhou copo de água. Acertaram e erraram. Mexeram com os seus eleitores. Flávio enrolou como um profissional e contou com certa complacência da entrevistadora, que teve altos e baixos, mais baixos com a direita.
Agora o jogo chegou ao seu ponto culminante: os debates. Primeiro, o dominical da Band. Depois, como um pênalti derradeiro, o da Rede Globo.
O bolsonarismo, que já tinha comemorado a vitória antecipadamente e quase vestido a faixa presidencial e formado ministério, sentiu o bafo na nuca. Voltou a usar velhos baixos truques. Retomou o espantalho Lulinha. Janones, comandante do exército de Lula nas redes sociais, armou a defesa: soldado lulista não comenta e nem olha denúncia do oponente para não criar engajamento. O algoritmo está confuso. Já não entende os brasileiros.
Nada como um tranco para virar um jogo.
Vai dar certo?
Ainda é cedo para saber, mas, como se diz no futebol, toda semana, quando um time sai atrás, parece perdido e com um gol suado retoma a competitividade, Lula voltou para o jogo. Só não pode diminuir a pressão nem recuar demais. Como dizia o título de um best-seller de valor, pra cima com a viga, moçada.
Mas e o debate da Band? Foi um lixo. Comentário na coluna desta terça.
Quem ganhou? O pior da televisão.