Antonio Lobo Antunes morreu em 5 de março deste ano. Foi um dos maiores escritores portugueses dos últimos cem anos. Em seu apartamento simples num prédio popular da avenida Afonso XIII, em Lisboa, numa tarde chuvosa de 1995, ele me recebeu para uma longa entrevista e revelou-se um lúcido e irônico sonhador.
Para recordar:
Juremir Machado da Silva – O universo dos excluídos serve de cenário e de tema para os seus romances de escritor-psiquiatra atravessados por citações eruditas. O senhor admite uma influência literária de Louis-Ferdinand Céline e outra, filosófica, de Michel Foucault?
Lobo Antunes – Nem de um e nem de outro. Em todos os países onde me traduzem tenta-se arranjar para mim um padrinho. Os franceses insistem em Céline, e os americanos em Faulkner. Muitas vezes, nem li os romancistas que os críticos apontam com minhas referências. Faulkner e Céline, claro, eu li. Foucault, por exemplo, não faz parte de minhas leituras. Nos primeiros livros, Memória de elefante e Os cus de judas, havia de fato muitas citações: era uma espécie de jogo com o leitor. A partir do terceiro romance isso já quase não acontece, e nos últimos desaparece por completo. Mais do que os parentes literários importaram no meu caso o cinema e a música. Integro a geração pós-gutenberguiana da palavra aberta aos meios de comunicação de massa e, em consequência, à imagem. As minhas fontes principais são mesmo a música, o cinema e a vivência na África. Não vi ainda as críticas francesas do Nouvel Observateur e do Libération sobre A Ordem natural das coisas, mas penso que devem estar abandonando a comparação com Céline, algo que me cansa um pouco, talvez porque também fui médico.
JMS – A referência a Foucault tem por base justamente o fato de que o senhor é psiquiatra de formação e trabalhou com brilhantismo o tema da loucura e do cotidiano de um manicômio em Memória de elefante. Enquanto intelectual, Foucault não o tocou?
Lobo Antunes – Experiências de vida semelhantes têm alguma importância. Mas não é tudo. Li Céline cedo, com 17 ou 18 anos, e, nessa altura, foi marcante para mim. Com a passagem do tempo e o nascimento da minha literatura, tomei outros rumos e sempre gostei mais dos escritores russos do século passado – Tchecov, Gógol, Dostoievski, Tolstói e Turguêniev –, além de ter sido formado através da literatura anglo-saxã, mais do que com a francesa, talvez por não vir de um curso de letras, mas de uma faculdade técnica. A literatura francesa foi muito discutida em Portugal, na universidade, nos anos sessenta. Passei ao largo disso, seguindo um apetite de autodidata. Apaixonei-me por alguns sul-americanos, entre os quais Cortázar, Rulfo e Sábato. Conheço mal a literatura portuguesa contemporânea. E não me interesso por ela, com exceção da obra de José Cardoso Pires e de outros dois ou três escritores. Saramago não me interessa nada.