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Nas páginas de Dostoiévski

A magia de um grande contador de histórias sobre a alma humana

Já faz tempo que entrei na idade das releituras. Leio muito. Sou um leitor profissional. Leio para minhas aulas. Toda semana discutimos um autor das ciências humanas. Leio como jornalista. Leio ficção para descansar. Houve época em que via na literatura um meio de mudar o mundo, de compreender o ser humano, de ser uma pessoa melhor, essas coisas todas.

Hoje, leio para me distrair e consumir beleza formal. Leio autores contemporâneos para estar a par do que rola atualmente. Há muitos bons. Quando, porém, releio os clássicos, acho quase todas as estrelinhas do momento bem pouco luminosas, fraquinhas, reles tentativas de imitação.

Ando numa fase de releituras de Dostoievski. Reli Crime e castigo. Que livro é esse! Sem tentar fazer uma só frase enfeitada, sem “barroquizar” a narrativa, contentando-se em jogar com a polissemia de alguns nomes próprios, o escritor conta uma história que não cessa de se tornar surpreendente, de uma psicologia profunda, envolvente, assustadora.

De certo modo, Dostoievski é o antiescritor. Não “literatiza”, não retorce as frases, não embeleza descrições, não romantiza paisagens, não se afunda em neologismos, não gasta páginas em poetização do relato. Conta.