O que dizer de uma cidade que destrói e apaga casas de infância? Onde se darão os reencontros?
Foi lendo a crônica Continuidades Subterrâneas, da psicanalista Manuela Mattos, onde ela sublinha a importância da casa de família no longa Valor Sentimental, que essa pergunta me veio à cabeça. A trama, sob direção do norueguês Joachim Trier, levou o Oscar na categoria melhor filme estrangeiro no último domingo.
– Uma reflexão que, de alguma forma, sempre aparece nos teus textos, não é mesmo? – ela me respondeu gentilmente.
É verdade, olho muito para a relação da arquitetura com a psicologia. Na crônica A Arquitetura da Complexidade, contei o quão importante foi o livro de Gaston Bachelard, A Poética do Espaço, para que eu despertasse para esse tema. Isso foi nos anos 1990, quando estava fazendo projetos para as Escolas Infantis de Porto Alegre, como conto naquele texto.
Talvez até mais importante do que o livro tenha sido a convivência com pedagogas e psicopedagogas lideradas por Esther Grossi. Com elas, aprendi que não deveria buscar corresponder de maneira direta e simplista a forma arquitetônica ao programa de necessidades como propunha a corrente funcionalista. Elas esperavam muito mais de mim.
A utilidade de cada ambiente carrega consigo bem mais do que uma necessidade humana direta e objetiva. Qualquer atividade é prenhe de subjetividades, subjetividades por demais complexas.
A arquitetura, portanto, também precisa ser complexa para atender bem a todas as dimensões que nos habitam, como dizia Robert Venturi nos anos 1960. No caso das escolas infantis isso significou desenhar espaços que, além de úteis no seu sentido funcional, também respondessem às necessidades internas da criança para o exercício de sua intimidade, distanciamento ou convívio social, experimentação do escuro, do medo e assim por diante, para muito além da rotina cotidiana relacionada à educação, alimentação e higiene.