Socorro Acioli está na moda. A escritora cearense, autora de A cabeça do santo, emplacou mais um sucesso com Oração para desaparecer, ambos pela Cia das Letras. O livro vem recomendado por Mia Couto e com agradecimentos para muita gente de peso na literatura atual. Ela encontrou uma fórmula vencedora: amor e mistério. Um pouco de realidade e outro de lendas indígenas ou de fábulas ancestrais.
O leitor, em algum momento, é avisado que se trata de uma alegoria: uma mulher é desenterrada em Portugal. Ela é brasileira. De onde? O sotaque é nordestino. O que houve com ela? Como se tornou ressurreta? O que significa isso? Como viajar por baixo da terra?
Por um lado, pensa-se logo nas agruras da imigração. Chega-se num lugar diferente sem falar a língua, sem identidade, sem referências, sem marcas pessoais, desencarnado, sofrido, morto.
Uma nova vida só é possível com acolhimento, ajuda de desconhecidos, aceitação de diferenças abissais, superação de preconceitos, abertura de espírito para o totalmente inusitado.
Quando se parte por necessidade, pela sobrevivência, empurrado para fora de casa, quase nada se leva na bagagem, salvo o seu santo de proteção, o seu amuleto, o último gancho no qual se agarrar.
Por outro lado, pensa-se numa verdadeira morte e na ressurreição. Em pessoas com o dom de saber quem vai voltar e onde esperá-las. Se nascer é possível, por que não seria ressuscitar?