Ao que tudo indica, Donald Trump resolveu adotar o método aconselhado por seu velho guru, Steve Bannon: jogar lama no ventilador para desviar o foco de uma merda maior. Ao repostar um vídeo racista em que o casal Obama aparece com corpos de macaco, Trump tirou a atenção do problema que mais o aflige: as revelações do dossiê Epstein. Por quanto tempo funciona?
O vídeo redistribuído por Trump é uma cartilha de racismo. O presidente dos Estados Unidos, depois de causar o estrago, usou a saída de emergência mais primária que existe: jogou para o colo de um assessor, que não teria visto o vídeo até o fim e teria respostado sem autorização.
Mais impressionante ainda é que Trump não acha que fez algo errado. Por isso, como declarou, não vai pedir desculpas. O vídeo foi apagado.
O caso faz pensar sobre as bases do poder nos Estados Unidos. Praticar racismo tão explícito não configura uma grave quebra de decoro?
Não há previsão legal para um pedido de impeachment por cometimento de falta tão séria? Afinal, racismo é crime. Trump joga, trapaceia e impressiona o fato de que não faltam brasileiros bolsonaristas nas redes sociais para defendê-lo em mais uma derrapada infame.
De tudo isso se retira uma primeira conclusão: o equilíbrio de poderes que sustenta a democracia moderna está em risco nos Estados Unidos. “Presidente forte”, segundo a expressão da sua porta-voz, Trump vem roendo parte das atribuições do legislativo e do judiciário. Vez ou outra, recua. No geral, dá a entender que o executivo deve ter a primazia das decisões mais importantes sem ser atrapalhado por considerações formais.