Faltava menos de um ano para eu chegar aos 65 anos. Estava em Paris, numa quinta-feira, não chovia, mas já era o céu chumbado do final de novembro. Saí de meu hotel, cuja marca era ter sido morada do poeta Rimbaud em algum momento das suas incursões desesperadas à capital, situado ao lado do hotel onde García Márquez produziu uma narrativa pungente e dolorosamente bela que ainda gosto de reler, para me surpreender com a precisão: Ninguém escreve ao coronel. Atravessei a praça da Sorbonne Velha, onde estudei, e desci pela Saint-Michel como se procurasse o meu destino numa esquina.
Fazia alguns meses que eu convivia com uma nova e incômoda convicção, a de ter me tornado velho, de um golpe, um tranco só. A vida toda havia pensado que na velhice teria de amarrar as pontas do meu passado de guri deslocado, criado parte do tempo na campanha gaúcha, onde era visto como urbano, até maturrango, parte do tempo na cidade, onde era suspeito de ser grosso, um tímido e simpático guascão. Cresci na fronteira com o Uruguai dos tuparamos, dos 33 valentes orientais e dos panchos calientes pensando em partir, sabendo que um dia iria embora para cumprir o que sentia instintivamente como minha obrigação e fatalidade. Assim seria a minha trajetória, sempre meio de lado, de viés, em diagonal, torto. As últimas folhas das árvores amarelavam o chão do Quartier Latin, como se fossem um tapete para amaciar a dureza dos meus passos e dos meus pensamentos.