

Tô me guardando pra quando a eleição chegar
O Brasil deveria estar vivendo intensamente a reta final da campanha eleitoral no seu primeiro turno. Mas foi arrastado para uma discussão imprevista sobre o STF a partir de uma manobra sorrateira de André Mendonça, ministro autodenominado terrivelmente evangélico e chamado de pixuleco eleitoral pelo colega Gilmar Mendes, em sessão extraordinária da alta corte de justiça brasileira. A eleição deslizou para o rodapé.
As repercussões eleitorais, porém, não demoraram a aparecer. Flávio Bolsonaro está subindo e Lula, baixando. Esse era certamente o objetivo do cabo eleitoral de toga. Há quem se pergunte: é verdade esse bilhete?
As pesquisas estão certas ou vão se desculpar depois alegando que só fotografam momentos e não fazem previsões? Essa é sem dúvida a maior malandragem já inventada na engenharia eleitoral. Acreditando-se nessa lorota parida em laboratório de esperteza as pesquisas nunca erram. Portanto, não podem ser cobradas por surpresas saídas das urnas. Será?
Haverá um eleitor pobre, que trabalha seis dias por semana por uma remuneração esquálida, disposto a sair de casa no dia do seu esperado descanso para votar em quem rejeita o fim da jornada 6 por 1? Existirá um eleitor que sairá de seu lar para votar em quem foi ao STF protestar contra o aumento do Bolsa Família em momento eleitoral? Neste caso, há eleitores que não votam pelos seus interesses mais imediatos, mas contra eles?
Pelo que votam então? Contra o comunismo? A favor da “escola sem partido”? Pelos valores conservadores e pelo fim da dissolução da moral?
Quem é esse eleitor extravagante e singular que dá tiro nos dois pés, preferindo um dia a mais de trabalho semanal ou um valor menor no Bolsa Família se for para barrar o avanço da “ideologia de gênero” e estreitar a submissão do Brasil aos Estados Unidos de Donald Trump? O que faz? Por que faz? Não se importa de trabalhar um dia a mais a cada suada semana?
Sei bem que existem pessoas assim. Sei também que podem ser iludidas, manipuladas e assustadas com fantasmas e espantalhos vestidos de vermelho.
Por personalidade tendo a pensar que cada um tem a sua sabedoria e que a turma dos camarotes também baba nas teclas das urnas eletrônicas. Não acho que só os diplomados sejam inteligentes ou capazes de separar o joio do chocolate. No caso em tela, como dizem certos relatórios técnicos e alguns técnicos em busca de uma expressão bonita, o joio é vendido como trigo e comprado como salvação da lavoura. É enrolação pura. Nada mais do que um grupo de interesseiros tentando ganhar votos convencendo pessoas de quem não devem escolher a partir dos seus interesses mais legítimos.
O objetivo principal da candidatura de Flávio Bolsonaro, o ponto único do seu programa inexistente, é safar o seu pai da cadeia.
Se o 01 vencer tentará libertar o pai antes mesmo de tomar posse, o que não lhe será permitido pela Constituição, embora talvez ele encontre um jeito de subir a rampa do Planalto, quem sabe uma liminar do amigo Mendonça, ao lado do capitão que se enrolou na própria estratégia e parou atrás das grades da sua mansão em Brasília, onde soluça de saudades do poder enquanto os sinos dobram em nobres responsus, pobre Jair, pobre Jair.
Será que ele está se guardando para quando a eleição chegar?