
Tocantins em Imperatriz
Estive em Imperatriz a convite do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Maranhão, coordenado por Leila Lima de Sousa. Falei sobre ciência como projeto de desenvolvimento social. Foi uma alegria encontrar agora colegas que integraram um Doutorado Interinstitucional que a PUCRS teve com a UFMA há alguns anos. Pude conviver um pouco com a uruguaianense Izani Mustafá, que migrou de mala e cuia para as margens do rio Tocantins e está feliz da vida. Imperatriz dispensa casacos, cobertores e outros artigos do gênero o ano todo. Cheguei no auge do calor.
Gosto de cidades quentes e espalhadas à beira de rios generosos e amplos. Faz alguns meses, estive em Palmas. Ando nos rastros do Tocantins. Como a viagem foi rápida – cheguei na quinta-feira e voltei no sábado –, não me atrevi a comer a panelada no Quatro Bocas, o prato mais típico da região, num dos locais mais populares da cidade, que serve um mocotó reforçado, segundo minha pesquisa, com miúdos de boi: bucho, tripa e mondongo, limpos com limão e vinagre, turbinados com cebola, alho, pimenta-de-cheiro, corante e cheiro-verde. Pé de boi também entra. O calor parece que não atrapalha o consumo desse prato incandescente. Mas tenho medo de algum contratempo em avião. Aprendi com meu amigo Gilles Lipovetsky a ser gastronomicamente parcimonioso antes de viagens aéreas. Gilles fecha a boca, mesmo em classe executiva.
Curti com os colegas Izani e Domingos um passeio pelo Centro Cultural Tatajuba, onde havia uma mostra de desenhos afros de alunos de escolas da cidade e uma exposição de impressão giclée (alta definição) de obras de Cândido Portinari. Sou apaixonado pela visão do cotidiano do grande pintor brasileiro.
Gosto de suas figuras pitorescas, populares, como diria o poeta Drummond sobre si mesmo, gauche na vida.

Além da acolhida calorosa de professores e estudantes, num auditório cheio, guardarei, como costuma me acontecer, a imagem serena do vasto Tocantins sob o sol escaldante do começo da tarde. Sinceramente delicioso. Tem algo de visceral nessa sensação epidérmica de satisfação com a sintonia homem e natureza. De um lado, Maranhão; do outro, Tocantins. Tivemos, num restaurante – Izani, Domingos, Luciana, que estava com a sua filha Olívia, e eu –, enquanto dividíamos uma imensa cocada com sorvete, uma conversa sobre frutas (eu nunca comi tamarindo nem polpa de jatobá) e expressões regionais, do tipo “comer de vianda” ou variações para carne moída, que vão do nosso guisado ao boi ralado catarinense. No elevador do hotel ouvi alguém dizer “estou brocado”. Tradução: com muita fome. Dá um dicionário de cada região.
Deixei uma sugestão culinária da minha infância na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, que minha sogra, Dona Loiva, de Alegrete, também gostava: ovo frito com açúcar e farinha de mandioca. Domingos ficou de experimentar e dar parecer.
Claro que também louvei o nosso fronteiriço arroz com pêssego (arroz com passa de pêssego caramelado). A Luciana, na sua passagem por Porto Alegre, ficou pasma com o nosso hábito de comer abóbora caramelada com comida salgada. Como é bom.
O Brasil é um rio, como o Tocantins, largo e comprido.