Fechei por um instante o livro e, esquecendo que não bebia há anos, pedi um cálice de vinho tinto. O garçom me trouxe um Bordeaux. Tomei um gole. Depois, me vi engolfado por aquela tropeada perdida no passado. Extraviei uma espora no caminho. Então tive de voltar para procurá-la sob um aguaceiro que testava minha capacidade de me proteger com o poncho e ao mesmo tempo galopar pela estrada encharcada, sentindo pavor dos raios que espocavam. Dormimos à beira de um passo, senti o frio me congelar os ossos. Ao amanhecer, um boi saltou uma cerca e se foi por um campo longo como uma missa, como dizia o peão que nos acompanhava e que sorria toda vez que me olhava. Ficamos pastoreando o gado por uma hora enquanto meu pai tentava recuperar o boi fujão. Veio uma tropa do outro lado e foi preciso muito esforço para evitar que os bichos se misturassem. Um tropeiro de preto atropelava os bois mais reticentes e os fazia entrar na ordem com trompaços que me quebravam só de ouvir o baque surdo da pechada.
E assim seguimos até a Madureira. Depois, sempre numa marcha cadenciada pelo humor da boiada, seguimos em frente comigo de ponteiro repetindo como num cantochão: “Vem boi, vem boi, boi, boi, oi, oi...”
Passamos diante de duas escolas e eu as reverenciei tirando o chapéu:
– Que foi isso, guri? –– perguntou meu pai vindo conferir minha faina.
– Uma escola – me fiz de sorro manso.
Eu me sentia livre e feliz, mas sabia que era uma passagem. Estava juntando dinheiro para estudar na capital. Havia campos a perder de vista e faltava vista para tanto campo e céu azul salpicado de pequenas nuvens. A estrada serpentava como se fizesse isso para esconder a sua falta de fim. A bunda já me doía nos pelegos cada vez mais duros. Eu seguia como gauchinho de uma espora só. Havia perdido também a caneca do café, mas a recuperado graças ao meu cachorro Lince, que sentara ao lado dela até que eu voltasse para pegá-la. Tudo parecia se desatar magicamente nos meus apetrechos. De vez em quando, meu pai ou o peão me ladeavam para trocar algumas frases.
– Que me diz, tropeiro?
– Bueno, pai, que nunca vi tanta estrada.
No caminho, vi meu pai carnear uma ovelha com a facilidade de quem desveste um casaco. Também o vi escrutar um arroio e nos dizer onde deveríamos fazer passar a tropa para ter menos perigo. Cruzamos por bolichos apinhados de homens sorumbáticos, com grandes facas na cintura, ouvi provocações de todo tipo sobre minha capacidade de ser tropeiro. Numa estância, no almoço, um guri me perguntou se eu já tinha domando um burro:
– Uns dois – eu respondi, modesto.
– Mas burro não corcoveia, palerma.
Fiquei desapontado. Meu pai e o dono da casa limitaram-se a pigarrear. Só num momento vi meu pai parecer em dúvida. Estávamos em algum ponto da linha divisória, entre Brasil e Uruguai. Meu pai temia entrar no Uruguai sem querer e ser acusado de contrabando. Apenas algumas casuarinas esparsas povoavam aquela imensidão de verde. Meu pai me honrou com uma consulta inesperada, mostrando que também ele podia hesitar: