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Quino, a ditadura e além – dados sobre um pessimista atemporal

Parêntese #319

Quino, a ditadura e além – dados sobre um pessimista atemporal
Imagem: Reprodução

Confira todos os textos da edição #319

Na última vez em que tive a oportunidade de trazer a obra de Quino como pauta para a revista Parêntese, o motivo era melancólico: seu falecimento, aos 88 anos, em 2020, entristecia o mundo dos quadrinhos e todos aqueles que acompanharam seu trabalho ao longo de tantas décadas. Em meio à pandemia da Covid-19, não houve sequer a possibilidade de homenagens públicas mais robustas a esse grande gênio. Não era a partida de um artista qualquer, mas sim do sujeito responsável por criar uma das personagens mais famosas do Mundo: a inconformada e contestadora Mafalda. Naquele momento, cheguei a escrever por aqui que a morte de Joaquín Salvador Lavado Tejón (nome verdadeiro do quadrinista) chegara “num momento de fortalecimento do pensamento conservador e autoritário na América Latina”, entretanto, apesar dos indícios, não esperávamos que, no caso da Argentina, isso ainda se manifestaria na trágica eleição do espalhafatoso presidente que hoje governa esse país. E é justamente neste momento, em 2026, que lembramos dos 50 anos do golpe militar que fez o povo argentino mergulhar num sombrio período ditatorial.

Curiosamente, ao contrário do que muitos pensam, o caráter contestador de Mafalda nunca teve a ver com a ditadura que ocorreu em seu país entre os anos de 1976 e 1983. Isso porque Quino produzira suas tiras em período anterior: de 1962 a 1973, fazendo a protagonista reaparecer eventualmente em animações, em compilações de tiras com o acréscimo de alguns trabalhos inéditos e numa campanha da UNICEF para divulgar a Declaração dos Direitos da Criança. Em depoimento reproduzido por Judith Gociol e Diego Rosemburg no livro La historieta argentina: una historia, Quino faz uma constatação fatal sobre o fim relativamente precoce das histórias de Mafalda: “Possivelmente, ela nunca teria chegado a ser adulta porque estaria entre os desaparecidos. Possivelmente, seria uma desaparecida”. Há muito a dizer a partir dessa declaração – sobre Mafalda, sobre o próprio Quino e sobre os quadrinhos argentinos, especialmente porque a história dessa arte nesse contexto de fortíssima repressão também é marcada por censuras e tragédias. Um dos casos mais conhecidos é o desaparecimento, em 1977, de Héctor Germán Oesterheld, o criador de O Eternauta, clássico das HQs recentemente adaptado para o audiovisual no formato de série (confira textos de Fábio Pinto sobre Oesterheld e sua obra na sequência de materiais publicados na Parêntese: 1; 2; 3).

Se Mafalda não se liga diretamente aos acontecimentos do período ditatorial em seu país, por outro lado ela acumula uma herança de tensões políticas ocorridas nos anos anteriores, além das tensões comportamentais características dos choques geracionais, entre jovens e adultos, dos anos 1960. Se suas tiras, de alguma maneira, podem construir diálogos com outros contextos posteriores ao seu ciclo de produção mais contínuo, é porque elas carregam uma relativa universalidade de temas e preocupações sociais que insistem em permanecer tanto em seu país quanto fora dele. Para além de Mafalda, no entanto, Quino tem uma extensa lista de trabalhos ligados ao cartum que muitas vezes dialogam diretamente com as questões políticas argentinas – inclusive, com a ditadura que ocorreu de 1976 a 1983.