Confira todos os textos da edição #308
Diário da guerra do sono: Capítulo VIII – Um plano, por Cristiano Fretta
A Ópera do Malandro, por Luís Augusto Fischer
Centenária: Maria, vó minha – Capítulo 10, por Tiago Maria
Qual é, Nano Gross?, por Juremir Machado da Silva
A última carreira do ano, por Carlos André Moreira
O grande encontro, por Abrão Slavutzki
O que está acontecendo com o cinema de horror?, por Matheus Cenachi
Orçamento Participativo federal é possível?, por Álvaro Magalhães
A felicidade é consequência, por Alexandre Silva
Sempre vale a pena recordar alguns encontros marcantes, entre os quais o de dois escritores: Moacyr Scliar e Ferreira Gullar. Foi no distante ano de 1976, trinta anos atrás, e no meio da trágica ditadura militar argentina, ocorreu um encontro de vastas emoções. O escritor gaúcho tinha incluído uma poesia do poeta maranhense no seu discurso de formatura médica no distante ano de 1962. Em Buenos Aires, década e meia depois, os dois se encontraram num apartamento simples, na modesta calle Combate de los Pozos, num bairro modesto de pequena burguesia. Era um domingo à tarde; além dos escritores estavam a Judith, esposa do Scliar, minha esposa Sonia e alguns amigos brasileiros. Era um apartamento quarto e sala, com a cozinha e o WC minúsculos, e, para sentar, almofadões no chão.
Scliar havia me ligado na sexta-feira, dia em que chegou na capital portenha, e logo acertamos para nos vermos no domingo à tarde. Aí me ocorreu convidar o já famoso poeta Ferreira Gullar, o que fiz no dia seguinte, sábado, quando liguei ao poeta que havia conhecido no ano anterior ao integrar um grupo que o entrevistou para a revista Versus do primo Marcão. Ele logo ficou contente, já imaginei que esse domingo seria emocionante, e não avisei ao Scliar, é claro, mas pressentia sua alegria, era seu fã, mas não o conhecia pessoalmente.
Eram umas quatro horas da tarde quando ele chegou com a Judith, e uns quinze minutos após tocou no interfone o Gullar. Precisava ter fotografado o autor de O centauro no jardim, seu mais famoso livro no mundo, que Scliar ainda escreveria. Os olhos dele se iluminaram ao ver o poeta que ele só conhecia de ler. Mico, como os amigos e familiares o chamavam o Scliar, ainda não havia ganhado três Jabutis e vários prêmios internacionais. Para se entender a vasta emoção do autor de A mulher que escreveu a Bíblia, é preciso recuar ao ano que se formou médico e foi o orador da turma de mais de cem médicos. A maioria que está lendo agora não era nascida ou ainda não sabia ler, e eu, adolescente, estava na festa, que foi na velha Reitoria da UFRGS lotada. Estava de pé, bem ao fundo, quando o Moacyr começou a ler seu longo discurso, na noite do dia 23 de dezembro, há 65 anos. Suas primeiras frases foram: