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O mago da gaita-de-botão

Parêntese #339

O mago da gaita-de-botão
Foto: @arunamcruz

Gilberto Hasse

* Esse texto, escrito no meio da pandemia de covid-19, 2020, acaba de receber alta da 'uteí' onde só não morreu porque ainda estou aqui. 

Gilberto Monteiro toca de olhos fechados pra não ver o diabo rir

Na noite do último 14 de maio, uma sexta-feira, o gaiteiro Gilberto Monteiro apareceu na ‘live do bem’ transmitida diretamente do Rincão Barbaquá, sítio no interior de Santa Rosa, no noroeste do Rio Grande do Sul. Foi um evento cheio de patrocinadores, com boa audiência e boa arrecadação de cestas básicas para os desvalidos da pandemia. “Grande convidado” chegado de fora – ele mora em Porto Alegre –, Monteiro ficou mais de duas horas ouvindo artistas locais até ser chamado para tocar duas canções, uma chacarera de Atahualpa Yupanqui, outra de sua autoria. Exibiu-se sem máscara, acompanhado por quatro músicos da terra. No final, telefonou ao repórter do JC avisando que ficaria mais uns dias por ali, “ajudando essa gente necessitada”, e que só no meio da semana voltaria à capital para uns exames clínicos na Santa Casa. Não, nada de covid: aos 68 anos, ele não se vacinou; acredita que os portadores de sangue O, como ele, são mais resistentes ao coronavírus. Como sabe disso? “A gente sabe”, falou, reticente, sem citar fonte ou levar o assunto adiante. Dispersivo, prometeu responder oportunamente a algumas perguntas do JC e não deu mais sinal de vida. Amigos dizem que ele é assim mesmo; costuma silenciar, sem aviso nem bronca. Enfim, por trás de um músico brilhante, temos um sujeito introspectivo, cioso da própria liberdade.