Escrevo a respeito do show realizado no último sábado, no Araújo Vianna, em Porto Alegre, dos irmãos Ramil: Kleiton, Kledir e Vítor. Escrevo, de certo modo, ainda arrebatado. Vou me esquivar, portanto, a comentar qualquer questão mais técnica ou fazer minhas críticas habituais, porque gostaria de caminhar por outras veredas dessa vez. Única ressalva: indicar como estão cada vez mais sofisticadas a projeção e a luz de Isabel Ramil, a ponto de se poder pensar, sem exageros, haver mais uma Ramil no palco.
O que presenciei no sábado foi um documento cultural da importância dos três para a música popular do Rio Grande do Sul. Minha sensação é de que são os compositores mais representativos da classe média branca gaúcha moderna (a raridade de pessoas negras na plateia foi evidente), e de que é possível avançar nessa leitura com enormes ganhos para entender a importância do trio.
A começar pelo teor de suas dicções. Parodiando Tolstói, a parte urbana de todas as cidades se parece, mas a parte não urbana de cada cultura citadina expressa suas particularidades à sua maneira. A cidade é uma tecnologia capitalista. Os Ramil cantam, entre euforia, nostalgia, melancolia e liberdade, a experiência daquilo que resiste à acachapante força da modernização e da transformação de tudo e todos em mercadorias. Não por acaso, lêem o Rio Grande do Sul desde Pelotas. Esse fato é por si só formidável, de que o ângulo adequado para ler a modernização do estado pela canção popular não seja porto-alegrense. É Pelotas “quem” vê, a certa distância, as transformações do progresso e pode comentá-las com proveito.