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A medida das coisas humanas: Capítulo X

Parêntese #320

A medida das coisas humanas: Capítulo X
Imagem: Tim Hüfner

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Estou, como em meu primeiro dia de trabalho voluntário no presídio, vestida de preto dos pés ao pescoço. Janaína está de vermelho. Não tinha o que vestir para a ocasião. Falei pegue o que quiser no meu armário. “Eu bem que achei que você era riquinha”, ela me diz com doçura e com seu instinto de humanidade intacto. Os dois anos, um mês e cinco dias não alquebraram o seu espírito. Mesmo nos períodos mais tensos e convivendo com mulheres sentenciadas a vinte e tantos anos de prisão, ela desenvolveu um senso de paz inalcançável para a maior parte das pessoas. Nesse quesito, eu sou a aluna. Sempre fui.

Annie Ernaux, uma das minhas escritoras favoritas, disse algo como ela ter mais necessidade de transformar que de desfrutar. Identifico-me com essa fala. De certa forma, ela justifica meu projeto. Sinto uma espécie de obrigação existencial, mas, no caso de Janaína, não faz o mínimo sentido. Sequer é justa. Sua vida interrompida por pegar carona com estranhos e depois pela severidade, para não dizer pelas falhas do sistema, merece um pouco de prazer. Não. Toneladas! 

Perguntei à assistente social se ela será indenizada pelo Estado, se haverá algum tipo de reparação material. Tudo o que ela tem cabe em uma bagagem de bordo de um voo doméstico. A assistente não soube me responder. E Janaína não consegue pensar, evita o assunto. Se eu não soubesse que ela é inteligente, eu a acharia, como as outras presas gostam de dizer, fraca das ideias. Ela só quer saber como estão as outras mulheres, se sentem sua falta e o que elas disseram do show de André. Não se conforma por tê-lo perdido. “Perdi por vinte e quatro horas”, repete sem se dar conta do absurdo.