Confira todos os textos da edição #309
Histórias de Autógrafos: Antonio Callado em "Quarup", por Carlos Gerbase
Proust-à-porter: O eu profundo e outros eus, por Claudia Laitano
Gilles Lipovetsky: “A Europa tornou-se vassala dos Estados Unidos da América”, por Juremir Machado da Silva
Projeto Gema – Dez anos: outras histórias antes das histórias, por Lucas Luz
Porto Alegre, 1900-05: O Ocaso e o início de suas arenas de touros, por Arnoldo Doberstein
Diário da guerra do sono: Capítulo IX – A evidência, por Cristiano Fretta
A mula nossa de cada dia, por Helena Terra
Vênus continuava me olhando. Atrás de mim, do outro lado da porta fechada, Odete perguntou que brincadeira é essa, seu Nélson? A seguir, surgiu a voz da Maria Clara: abre a porta agora mesmo, Major. Tirei os olhos de Vênus e voltei à porta: quem vocês pensam que são para falar desse jeito comigo? Vocês me respeitem, eu sou o Major Orquídea, já mandei muito vagabundo pra fossa, vocês nem fazem ideia de quantos, vocês acham que eu tô decrépito, mas não estou, estou no auge da minha força.
Um monte de rostos se amontoando à minha frente: cansaço, hematomas, ossos rangentes, dentes expostos, pequenos cortes, uma sinfonia de gritos e o manto de um silêncio absoluto depois que tudo passava. De um deles, cortei o polegar. Em outro bati tanto até que o olho saltasse da órbita, aquela coisa branca e gosmenta atirada no chão. Depois, uma veio para cima da gente. Uma hora depois, flutuava no Guaíba. Eu chegando em casa e a Lina não vindo na minha direção, uma ausência profunda como se enfiassem uma faca no meio da minha barriga. A Marisa sempre chorando. Escutaram, suas vagabundas? Já mandei muito vagabundo para o capeta, não me custa nada mandar vocês duas também, ouviram? Deixa disso, Major, pelo amor de Deus, a gente precisa sair daqui. A seguir, se calaram. Ouvi alguns cochichos. Estava tudo sob controle. Impossível abrir aquela fechadura por dentro. A única alternativa era aquelas duas vagabundas abrirem a janela e pularem. Isso não seria uma má ideia, facilitaria ainda mais o meu serviço.
Caminhei até a sala. Em cima da mesa estavam os dois celulares. Sempre proibi a Odete e a Maria Clara de usarem essas porcarias. Quando chegavam, eram obrigadas a deixar os aparelhos ali naquele lugar, senão com certeza não trabalhariam direito, ficariam o tempo todo de frescura na internet, tá no sangue, não adianta. Eu penso em tudo, sempre. Sempre pensei. Caminhei até a mesa e peguei os aparelhos. Tentei desbloqueá-los, mas não sabia a senha. Nas telas, surgiram imagens de péssimo gosto: uma praia cheia de gente e a cara da Maria Clara. É claro que elas jamais colocariam uma Vênus em seus celulares, tá no sangue, não adianta. Tentei descobrir as senhas, mas acabei bloqueando o aparelho das duas. Para que colocar senha em celular, se não há nada o que se esconder? Quem não deve não teme. Quem tem algo a esconder tem medo e coloca senha no celular. As duas eram muito bem pagas, não deveriam ter nenhum segredo comigo. Jamais encontrariam outro lugar que pagasse tanto, ainda mais para a merda de serviço que faziam.
Entrei na cozinha: estava tudo uma bagunça, um pacote de bolacha aberto em cima da pia, coisas separadas para fazer alguma refeição, um cheiro suspeito no ar. Verifiquei as panelas: nada no fogo, nenhuma gororoba estava sendo feita. Nunca mais comi um feijão como o que a Marisa fazia. A Marisa e a Lina, as duas em volta de mim, o cheiro no ar. Eu não merecia terminar meus dias daquele jeito, quase trancado num imenso apartamento, sendo cuidado por duas empregadas. Caxambu.