Pular para o conteúdo

PUBLICIDADE

Trump nem disfarça, não é mesmo?

Parêntese #310

Trump nem disfarça, não é mesmo?
Foto: Molly Riley / Casa Branca

Confira todos os textos da edição #310

“Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal.” Maquiavel

Há alguns dias conversávamos eu e alguns amigos, todos 40+ (alguns bem mais), sobre os rumos da política neste ano da graça de 2026. A conclusão, unânime, é que nenhum de nós vive mais apegado a idealismos, e que o bom de envelhecer (talvez) seja saber que não vale a pena entrar em certas brigas e nem negar a realidade. 

Ao contrário do senso comum, o “maquiavelismo” nada tem a ver com maldade ou com a má política, o que Niccolò di Bernardo dei Machiavelli, ou simplesmente Maquiavel, pregava em seus escritos era o uso do realismo político, focando na prática do poder e nas relações entre os interesses próprios e os conflitos da sociedade. Como na citação do próprio filósofo que abre este texto, existe uma inevitabilidade entre o exercício de um governo e o comportamento humano, e o líder precisa estar preparado para lidar com essas contradições, escolhendo lados, uma vez que agradar a todos é algo impossível. 

Porém, não sei se Maquiavel estaria preparado para um ator político como Donald Trump, e por conseguinte, toda essa nova direita, ou extrema-direita, que eclodiu de uns anos para cá no mundo. Ao contrário do embate de ideias, Trump e seus seguidores deixaram boa parte da esquerda e, até mesmo, a própria direita tradicional sem discurso. O fim da era da hipocrisia, talvez? Acho que não. O verniz de civilidade que garantia a existência de pólos opostos onde a prática política se desenvolvia em ambientes democráticos foi substituída por uma espécie de cinismo.