A relação das gentes do interior com os centros urbanos e suas pessoas é um tema inesgotável, cheio de pequenas nuances. Buenos Aires e Paris costumam ser vistas com um estranho desdém por nativos de Córdoba e Picardia, por exemplo. Se rejeita a afetação e a arrogância, se rejeita o excesso de tudo, a mistura, os sons, a sujeira, a fartura. Mas há ao mesmo tempo um imã, um destino fatalista para as pessoas deslocadas, sonhadoras ou ambiciosas, tal como nas Ilusões perdidas de Balzac.
Eu vivo em Porto Alegre desde 2008, tendo nascido a esburacados 457 quilômetros de distância, em Iraí, na região do Alto Uruguai, e passado alguns anos perdido no Paraná. Não sei bem se existe um arquétipo para definir esse tipo, mas antes de finalmente chegar na cidade fui um sujeito que viveu um longo e curtido amor platônico pela capital, considerando-a um salvaguarda utópico, acionado como destino ideal quando as coisas não estavam indo tão bem. Esse amor foi alimentado pela literatura, pelas crônicas e pela movimentação social e cultural que acompanhava pelos jornais desde a infância. Cenários amplos para minha imaginação: o Beira-Rio lotado no Grenal do século, Bob Dylan no bar Opinião, as sarjetas da Oswaldo Aranha, o Fórum Social Mundial.
Porém, em um lugar exclusivo e especial estão as canções da cidade. Elas é que forjaram o fogo primordial desse amor.
Semana passada, depois de receber uma notícia bem ruim, fui digeri-la como dava: caminhando aleatoriamente pela Cidade Baixa, com os sentidos alienados, conversando com as ruas e os muros, que são sempre bons de escuta e muito opinativos. Há muito tempo que não fazia esse exercício de conversar com Porto Alegre. Andar pela cidade é uma das coisas que mais gosto na vida, e foi assim que aprendi a conhecê-la de verdade e viver nela. Porque a vida miúda tem uma graça e um amargo diferentes. Geografia e identidade são determinantes para entender uma visão de mundo, exigem determinação e esforço insondáveis para serem suplantadas ou modificadas. É muito mais fácil viver como um estrangeiro.