Tive uma conversa com Dominique Wolton sobre o tempo, a pressa e as oportunidades que a vida dá e que exigem guinadas radicais.
Repeti para ele meus argumentos clássicos. Contei-lhe o que já escrevi tantas vezes. À noite, depois de voltar de uma visita à cidade de Béziers, fomos ver PSG e Tottenham num pub de Montpellier com nosso amigo Olivier.
O PSG acabou ganhando por 5 a 3 depois de algum susto.
Não havia pressa em terminar. Era o tempo da amizade.
Quando eu era criança, porém tinha pressa de crescer para conquistar o mundo. Era um guri normal. Jovem, queria logo amadurecer para reinar sobre poucos ou muitos e ser aclamado como um vencedor.
Era um adolescente normalmente ansioso e tão crítico que me chamavam de “catedrático”. Maduro, tinha pressa de me aposentar para fazer o inventário das minhas conquistas e escrever as minhas memórias. Velho, tenho pressa em desacelerar o tempo para, quem sabe, voltar a ser criança e soltar pandorga nos céus de Palomas.
Na juventude, quando tudo me parecia possível e desejável, queria andar pelo mundo com amigos, amores, colegas. Na velhice, quando tudo parece improvável ou pura vaidade, muita andança por pouco, quero voltar para casa, viver no aconchego da família.
A humanidade, contudo, divide-se em dois grupos, apenas dois, o dos que querem partir para longe e o dos que querem voltar para casa. Sou obcecado por este assunto e por esta classificação universal. Faça-se uma pesquisa e esta intuição passará a ser uma verdade científica. O preço da pressa é um tema que ainda precisa de reflexão.
Os que querem partir para longe não cultivam a nostalgia. Contentam-se em idealizar o outro lado, esse lugar que não é seu. Os que querem voltar para casa, para a aldeia, o ponto de origem, desconfiam das utopias tardias e dos lugares perfeitos que dependem de vista de permanência ou de taxa de ingresso para entrar. Ambos acertam e erram. Jovem, li Longe é um lugar que não existe. Era bonito demais para ser verdade. Velho, releio Este lado do paraíso. Aprendo que o inferno não é longe daqui nem de qualquer outro lugar no mundo.
Jovem, eu tinha pressa de acordar. Velho, tenho pressa de dormir. Rapaz, acordava cedo para enriquecer. Veterano, durmo cedo para sonhar. Sonho que sou jovem e não tenho pressa de ir embora.
Definitivamente velhice e juventude não andam de mãos dadas. Parecem aqueles dois burrinhos das fachadas de cooperativas antes da colaboração. Não se associam, não se bicam, não cerram fileiras.
A pressa é inimiga da perfeição e da velhice. Aprendi por ser velho, não por ser sábio, que a pressa é um produto embalado e vendido aos jovens pelo capitalismo da aceleração social. A pressa de cada jovem sempre coincide com a necessidade de pressa embutida na produção ou na expectativa de venda do sistema da obsolescência programada.
Albert Camus, o Nobel franco-argelino da literatura que morreria em acidente de carro, ensinava que não se deve ter medo de “passar tempo de qualidade sozinho”. Estimulava o hesitante ou temeroso: “Roube algum tempo e dê-o livre e exclusivamente a si próprio”. Acalmava os sofridos e escaldados: “Isso não te torna antissocial ou faz com que rejeite o resto do mundo, mas precisas respirar. E precisas ser”. Que assim seja. Velho tem tempo para dar e vender. Quase ninguém compra. Não estamos no tempo dos sábios ancestrais.
Jovens saem correndo quando chega um velho contador de histórias. Têm pressa de não escutar o que talvez venham a viver.
Velhos perdem a capacidade da concisão. Ao contrário do Padre Vieira, que, depois de uma carta longa se desculpou com “um não tive tempo de ser breve”, os velhos como eu já têm tempo para cortar.
Só lhes falta uma boa razão.
A melhor razão para não ter pressa é encontrar amigos.
Pode-se, inclusive, recontar o que nos obceca.
Ou tapar os olhos para deixar o tempo parado.