Confira todos os textos da edição #313
Nem toda mistura é boa, por José Damico
Geração Z não gosta de carnaval?, por Juremir Machado da Silva
“Ó, abre alas, que eu quero passar”: Dyrson Cattani, por Jandiro Koch
Estória enviesada, por Beatriz Marocco
Entre casa e marido, por Fernando Seffner
Histórias de Autógrafos: Michael Ruse em Levando Darwin a sério, por Carlos Gerbase
Pedaço de uma vida íntegra, por Luís Augusto Fischer
O “avô” dos estudos do livro e da edição no Brasil, por Ana Elisa Ribeiro
A medida das coisas humanas: Capítulo III, por Helena Terra
1903: A morte de Barros Cassal, memória e esquecimentos, por Arnoldo Doberstein
Enquanto levanto pesos para os bíceps, Tati me conta que Rodrigo, o filho do meu esboço de sogra, está, como dizem os melodramáticos, com o coração partido porque me afastei, e preocupado porque resolvi trabalhar com as mulheres privadas de liberdade. Na penitenciária, o ambiente por si só já é perigoso e, se souberem que ele é da Polícia Civil, podem me achar pouco confiável. Eu não confio em nenhuma das minhas alunas. Mas também não desconfio. Sinto simpatia por uma, a primeira com que tive contato: Janaína, a bibliotecária não oficial do presídio. É claro que não existe esse cargo lá dentro, e tampouco ela é graduada em Biblioteconomia. Trabalhava com vendas, no Centro Histórico, antes de se ver atrás das grades e passar a ser chamada de Vesga pelas outras mulheres.
O grupo inteiro gosta dela. Como todas, diz ser inocente. Fui advertida pela psicóloga que as acompanha que elas tentariam me sensibilizar com esse tipo de conversa. E tentam. Algumas estiveram no noticiário na época em que foram detidas. Crimes pesados, envolvendo mortes de crianças que eu, como todo mundo, fiquei sabendo. A mim, não cabe saber detalhes sobre eles e seus julgamentos, mas Janaína me intriga. Ela não é culta. Pelo seu vocabulário percebo a ausência de leitura, mas é tranquila e diz: boa tarde, com licença, me desculpe.
As outras são mais de dizer: tudo em cima, foi mal. Eu pensei em perguntar a elas até que série frequentaram a escola. Ainda bem que penso antes de falar. Poderiam aparecer diferenças desestabilizadoras do frágil controle com que elas se mantêm. Dividiram-se espontaneamente dentro do círculo que pedi que fizessem, em três grupos, mantendo um espaço de quase uma cadeira entre eles – como se houvesse melhores, piores ou as superiores e as inferiores ou as malvadas e as muito malvadas entre elas. As uniformizadas se uniram. Não sei até hoje se são obrigadas a usar as roupas laranjas. Ia perguntar à assistente social que supervisiona meu projeto, mas acabei esquecendo. São tantas coisas e palavras para guardar em meu cérebro.