Confira todos os textos da edição #310
- Sobre as tiranias: uma possível leitura psicanalítica, por Leonardo Beni Tkacz
- Trump nem disfarça, não é mesmo?, por Euclides Bitelo
- As vaias, por Gustavo Melo
- Equipamentos culturais públicos: a gestão importa, por Álvaro Magalhães
- Bruxas, por que não?, por Clarissa Brittes
- Histórias de Autógrafos: Luis Fernando Verissimo em “Comédias da Vida Privada”, por Carlos Gerbase
- Pensa um homem jaguara, por Paulo Damin
- Diário da guerra do sono: Capítulo X – O sono, por Cristiano Fretta
- Nas pegadas de Milton Hatoum, por Juremir Machado da Silva
A tentativa de opor “democracia” e “técnica” é um falso dilema que corrói os alicerces do Estado representativo. Mais do que conceitos abstratos, política e técnica são os dois pilares fundamentais de uma convivência civilizada, cada um com sua vocação própria, mas indissociáveis na construção de um governo que se pretende ao mesmo tempo legítimo perante o povo e eficaz na realização de suas promessas. A defesa intransigente que se propõe aqui é desta união necessária, contra os dois venenos que a ameaçam: a partidarização cega da administração e o disfarce tecnocrático das escolhas políticas. A análise de casos concretos da formação de candidaturas e da gestão de crises revela as consequências catastróficas quando esse equilíbrio se rompe.
O processo eleitoral é, antes de tudo, um rito civilizatório. É o mecanismo pelo qual uma sociedade plural e conflituosa decide, de forma pacífica e periódica, quem detém a autoridade legítima para dirigir o Estado e definir o projeto de nação. Essa decisão – também um “o que fazer” coletivo – é inerentemente política. Nenhum algoritmo técnico pode responder a perguntas como “devemos priorizar austeridade fiscal ou investimento social emergencial?”. São escolhas de valores, resolvidas na arena democrática. Uma vez estabelecido esse horizonte político, entra em cena a esfera da técnica com sua vocação própria: o “como fazer”. A administração pública profissional, o conhecimento especializado, a burocracia racional existem para traduzir decisões políticas em realidade de forma eficiente e responsável. A técnica é a linguagem da implementação concreta. Ignorá-la em nome de um voluntarismo ideológico é condenar-se ao fracasso prático.
Contudo, é perigoso ver essa relação como uma simples divisão de tarefas entre esferas estanques. A própria ideia de uma separação rígida pode ser uma armadilha retórica. A técnica raramente é um território de neutralidade absoluta. Os critérios que prioriza, as métricas que elege, as próprias perguntas que se propõe a responder são moldados por visões de mundo e escolhas políticas prévias. Um governo que elege o equilíbrio de contas como meta suprema faz uma opção política tanto quanto aquele que prioriza a redução imediata da desigualdade. Apresentar uma dessas opções como a única “racional” ou “técnica” é uma forma de despolitizar um debate que é, em sua essência, democrático. Trata-se de reduzir um conflito de valores a uma linguagem aparentemente incontestável, para tentar encerrar a discussão. Este é o primeiro veneno: a tecnificação do político, que usa a aura da neutralidade para imunizar projetos contra a contestação popular.