Confira todos os textos da edição #321
- Entre o Mundo e Eu – Capítulo I, por Marlon Pires Ramos
- Marlon Pires Ramos, entre sorrisos e lágrimas, por Luís Augusto Fischer
- Vida na Pinguela, por Luís Augusto Fischer
- Todas as artes juntas, e mais uma, por Alfredo Fedrizzi
- Porto Alegre, 1911: A árvore e seu monumento, uma inutilidade ou algo mais?, por Arnoldo Doberstein
- As velhas e suas falas, por Fernando Seffner
- Tempo de fúria e desmedida, por Juremir Machado da Silva
- O rock gaúcho – Parte III, por Arthur de Faria
- Com rima e sem solução: ato, fato e Pilatos, por Homero Vizeu Araúho
- A vida retoma o ritmo – e as leituras que se adaptem, por Carlos André Moreira
- Cordel do Corte Raso, por Gonçalo Ferraz
Embora eu e muitos de vocês não tenhamos tirado férias em janeiro e fevereiro, é inegável que o ritmo da vida, do trabalho e das urgências é outro nos meses anteriores ao Carnaval. Após o fim da festa da carne, não há mais um terço ou mais da população em férias, não há desculpas, não há motivos para placidez e a vida retoma seu ritmo – e nisso, o que atravessa o samba é a planilha de leituras.
Um dos melhores e mais engraçados contos brasileiros de que tenho lembrança é Os contistas, uma narrativa “curta” relativamente longa (30 páginas na edição em que saiu originalmente, a coletânea A balada do falso Messias) na qual Moacyr Scliar faz uma sátira ao mesmo tempo ágil e sarcástica do mundo literário. O contista narrador da história comparece ao lançamento do livro de outro contista (o contista Ramiro). Ao longo do coquetel, o narrador bate o olho concupiscente mais de uma vez em Marisa, bela mulher que “ia a todas as tardes de autógrafos”, mas que a narrativa não deixa claro se era ou não contista (aliás, meio que plasmando uma visão de mundo bastante anos 1970, todos – ou quase todos, se eu esqueci de alguma passagem - os contistas mencionados na história são homens). Suas tentativas de flerte são, contudo, toda hora interrompidas.
O protagonista/narrador caça, sem sucesso, alguma coisa para comer, bebe demais, encontra vários outros contistas, gente meio chata com um ego superalimentado (o contista Poy, o contista Murtinho, o contista Guilherme e uma infinidade de outros) que também bebem demais e que perguntam uns aos outros o que andam escrevendo. O narrador responde que vem trabalhando em um conto chamado “Os contistas”. E em meio a essa bagunça, a narração entremeia histórias fantásticas absurdas e cômicas sobre contistas que o narrador encontra na sessão de lançamento, seus métodos, suas dúvidas e suas aflições no exercício da profissão – como se o conto fosse também um relato de sua própria composição. Uma dessas histórias é uma longa descrição da razão matemática do trabalho do “Contista Caio”, que “pode produzir um conto a cada duas horas. Sabendo-se que dessas histórias cinquenta por cento são ruins, vinte e cinco por cento regulares e vinte e cinco por cento são boas, quantos contos pode produzir o contista Caio num dia, e quantos desses são, respectivamente, bons, regulares e ruins?” A resposta não é simples porque a narrativa comicamente vai subtraindo horas das 24 disponíveis em um dia até sobrar para o contista apenas duas horas por dia, nas quais ele fará um único conto, sem saber se será ruim, regular ou bom, dúvida que o atormenta e o impede de escrever, no fim das contas.