Confira todos os textos da edição #307
- Serranos na várzea – Parte 5, por Geraldo Hasse
- Enchente e apagão no Rio Grande: crises bem diferentes entre si, por Álvaro Magalhães
- Lutz e o Pampa, por Lilly Lutzenberg
- Carta para Juliana, por trabalhadoras da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)
- O pinochetismo volta para La Moneda, por Alexis Cortés
- José Amaro: dândi, flâneur e tenor pelotense, por Jandiro Koch
- O bug, as formigas e a merdificação da internet, por Beatriz Marocco
- Porto Alegre, 1900: a criação da Faculdade Livre de Direito e a presença de magistrados nordestinos como professores, por Arnoldo Doberstein
- Cicatrizes da rua, por Luís Augusto Fischer
- Rimbaud retraduzido, por Juremir Machado da Silva
- Mulher a caminho, por Helena Terra
- Diário da guerra do sono: Capítulo VII – Homem de palavra, por Cristiano
Começaram a aparecer às pencas, o Paes trazia. De início assustados, mas logo se entregavam a um tédio resignado e silencioso, dava para sentir o tempo se desfazendo a cada vez que abríamos as portas e olhávamos aquele monte de infelizes. Não demorou muito para que houvesse superlotação, o cheiro ficando insuportável e nós já com medo de abrir a porta e uma meia dúzia sair correndo sem que pudéssemos deter ninguém.
Era necessário dar o exemplo para aquela corja toda, então, uns dias depois da minha volta, eu abri a porta, olhei para os sacanas e disse até o final da manhã de hoje eu acabo com a raça de um de vocês. Mal me importava com a dor de barriga que me revirava as entranhas, tudo o que eu queria era causar medo. E sei que causava.
Perto do meio-dia eu chamei um barbudinho qualquer e o levei para uma das salas dos fundos. O Paes estava lá, me esperando. Amarramos as mãos do filho da puta e o afogamos repetidas vezes. Ele repetia eu conto quem é, eu falo o que vocês quiserem, só por favor, me deixem voltar para casa, e a gente enfiando a cabeça do desgraçado dentro do tanque. Um homem não é nada sem a força de suas mãos. Por mais que ele forçasse a cabeça para trás, nada podia fazer a não ser segurar a respiração e instintivamente tentar respirar debaixo d’água, causando afogamento. Quando o levantávamos, seu respirar parecia querer sugar todo o oxigênio da sala, mas logo em seguida eu o mergulhava de novo, meu braço segurando sua cabeça debaixo d’água quase na altura do cotovelo. Dessa vez vai ser mais tempo, ele vai ver, vou cumprir minha palavra. Sou um homem de palavra. Ele se debatia, a água borbulhava, um mar revolto dentro daquele tanque. De novo a palavra: Caxambu. Eu não dormia mais, passava as madrugadas batendo a cabeça nas paredes, uma lucidez insuportável às 3h da manhã, a Marisa preocupada comigo, vê, homem, só falta me acontecer alguma coisa contigo agora, a vida segue, Nélson, Lina está bem, nos braços do Senhor, e eu pensando que merda de Deus é esse que não deixou a minha filha comigo, ela não tem que estar no céu, tem que estar em casa comigo, meu Deus, eu queria poder levar ela na Redenção de novo. Então a água se acalmou, sua cabeça não mais resistia. Eu larguei seus cabelos, tirei o braço de dentro d’água. O corpo do infeliz primeiro deslizou para frente depois baqueou para trás, em uma pancada dura. Olha que eu vou ter que mudar o teu apelido, disse o Paes, que havia observado tudo em silêncio.