Li uma entrevista de Fernando Morais na qual ele diz que só sobrou Zé Dirceu para dizer não a Lula. Como biógrafo do presidente da república, ele deve saber alguma coisa. Acrescento, porém: Dirceu e o PT gaúcho. Salvo se tem fakenews na parada. Corre solta a versão de que Lula quer PT e PDT juntos, desde o primeiro turno, na eleição para governador do Rio Grande do Sul deste ano, mesmo que isso signifique Juliana Brizola na cabeça.
Até agora, no entanto, o PT gaúcho não dá sinais de que vai acatar a sugestão de Lula. O pré-candidato Edegar Pretto segue firme na paçoca.
Ouço por toda parte de petistas de alto coturno que o essencial neste ano é reeleger Lula. Cada Estado deve entrar com o máximo de votos para a cesta nacional. As alianças estaduais são essenciais para esse fim.
Por outro lado, Lula é o grande mestre em alianças e vitórias eleitorais. Já ganhou cinco vezes a presidência da república: três para ele e duas com Dilma Rousseff. Fez alianças que horripilaram a sua base na época. Até a parceria bem-sucedida com Geraldo Alckmin era contestada.
É verdade que Lula sempre fez alianças com ele mesmo na cabeça. Mas é da natureza do jogo que o craque tenha alguns privilégios no terço final.
É a partir disso tudo que me atrevo a dar uma sugestão aos petistas gaúchos: ouçam o Lula. Ele merece um voto de confiança como estrategista.
Na eleição municipal de 2024 o PT fez a sua aposta em Porto Alegre e perdeu fácil. Lula nem veio participar da campanha. Não se trata de falar mal dos candidatos escolhidos, com imensas qualidades, mas de densidade eleitoral, também conhecida como capacidade de fazer votos e ganhar.
Já imaginaram se a escolha contrariar a posição de Lula e resultar em desempenho fraco do presidente no Rio Grande do Sul? Quem se responsabiliza? Claro que existem as pessoas, suas expectativas e sonhos. O momento, contudo, conforme ouço da própria esquerda, é de barrar o retorno do fascismo. Na França, Lionel Jospin, que faleceu na semana passada, depois de ter sido primeiro-ministro, concorreu à presidência da república. Derrotado no primeiro turno, não hesitou em apoiar Jacques Chirac, da direita republicana, contra Jean-Marie Le Pen, da extrema direita, no segundo turno. Alianças pontuais ou programáticas são do jogo democrático.
Enfim, como quem olha de fora, eu me atrevo a dizer que, nesta hora assustadora, se eu fosse da direção do PT gaúcho, ouviria o Lula. Talvez não seja o melhor momento para bancar o hegemonista ou fazer valer um purismo raiz. A parceria com o PSOL e com o PCdoB é ótima, mas não tem sido suficiente para retomar Porto Alegre ou o governo do Rio Grande do Sul.
Tem o segundo turno para uma aliança mais ampla? Tem. A batalha do primeiro turno, porém, costuma produzir tanto estrago que a conciliação na reta final acaba por não ter tempo de curar todas as feridas abertas.
Fala-se em intervenção nacional para fazer valer a vontade de Lula na escolha do PT gaúcho. Aí já seria um mico. Melhor simular vontade própria.
Afinal, uma boa ideia não pode ser desprezada pela origem.
Posso estar enganado, mas repito: melhor ouvir o Lula.