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Diário da guerra do sono: Capítulo IIII – Um apartamento

Parêntese #304

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Estacionei o Willys Gordini a algumas quadras do endereço. Só o que me faltava era aquela porcaria me dar problema justamente por aquelas bandas da zona sul. Eu não conhecia o nome de nenhuma rua, minha sorte era que o endereço ficava bem na Tramandaí. Me enxerguei às beiras da estranheza, ali, sozinho, caminhando debaixo de alguns plátanos, rumo a um endereço tão distante. Eu menti para a Marisa, não disse que iria até aquele fim de mundo. As pedras mal alinhadas da calçada, um ventinho bom de se sentir, meu sapato preto, o berro na cintura. Ipanema. Caminharíamos nós três pelo calçadão, eu, a Marisa e o rebento que nós tanto queríamos que viesse. Não a Ipanema de Porto Alegre, mas sim a do Rio de Janeiro. 

Cheguei em frente ao pequeno prédio, abri a porta e subi as escadas silenciosas. À direita, já no primeiro andar, um número: 73. Pensei em deixar aquela baboseira de lado, uma besteira sem tamanho, um homem honrado como eu estar me sujeitando àquele tipo de barbaridade, mas de repente bati na porta e ela se abriu. Um negrão sorridente surgiu. Ele vestia um roupão azul, por alguns instantes tive medo de que estivesse pelado por debaixo da peça, mas mesmo assim entrei. A pequena sala era cheia de espelhos, colares, incensos, cigarros. Cortinas vermelhas cobriam a janela. Ele fez sinal para que eu entrasse, fechou a porta e puxou uma cadeira em frente a uma mesa redonda coberta com uma toalha bege e cheia de cartas e conchas por cima. A seguir, se sentou do outro lado da mesa. O homem fechou os olhos durante alguns segundos e respirou fundo. Em seguida, me olhou sem ao menos piscar. Nélson seu nome, né. Sim. Fechou os olhos de novo e pediu para que eu falasse por que estava ali. Achei que o Paes tinha te dito, respondi. O Paesinho, disse ele dando uma espalhafatosa risada. Além de tudo era veado. Eu me mantive forte, circunspecto. Não, não, o Paesinho não conta nada, só disse que tinha um amigo dele que viria me procurar. Foi então que eu larguei: quero ser pai, e minha mulher quer ser mãe, preciso compor uma família.  Ele ficou em silêncio, me observando. O que foi, perguntei. Ele me olhou completamente sério, sem nenhuma sombra da gargalhada recém dada. Tua mulher não sabe que tu está aqui, né? Não, não sabe. Não é de se admirar, vocês são todos assim. Eu nunca minto para minha mulher, respondi. Não disse que mente, tenente Nélson. Tenente não, capitão. Ok, capitão Nélson, não disse que mente, só disse que não contou tudo. Eu continuei: se tudo der certo, virarei major. Então tá, futuro Major Nélson, disse ele, arregalando os olhos, os imensos olhos brancos. De alguma forma aquele nome, Major Nélson, não me soava bem.