Confira todos os textos da edição #321
- Entre o Mundo e Eu – Capítulo I, por Marlon Pires Ramos
- Marlon Pires Ramos, entre sorrisos e lágrimas, por Luís Augusto Fischer
- Vida na Pinguela, por Luís Augusto Fischer
- Todas as artes juntas, e mais uma, por Alfredo Fedrizzi
- Porto Alegre, 1911: A árvore e seu monumento, uma inutilidade ou algo mais?, por Arnoldo Doberstein
- As velhas e suas falas, por Fernando Seffner
- Tempo de fúria e desmedida, por Juremir Machado da Silva
- O rock gaúcho – Parte III, por Arthur de Faria
- Com rima e sem solução: ato, fato e Pilatos, por Homero Vizeu Araúho
- A vida retoma o ritmo – e as leituras que se adaptem, por Carlos André Moreira
- Cordel do Corte Raso, por Gonçalo Ferraz
Notas de um filho nativo
Esse lugar aqui é uma loucura. Parque da Redenção, Parque Farroupilha, seja lá o nome que tu chame. Bah, não me desce. Pega essa Feira de Orgânicos aqui. Peloamordedeus! Essa gente branca aqui, passeando endinheirada, esnobe, todos brancos, concursados, herdeiros, esbanjando um ar superior com seus ovos orgânicos, seus sucos de laranja natural, suas ecobags de alguma viagem pra fora. Tá maluco! Todos os artesanatos valem mais que tu. Qualquer cão gringo ou vira-lata vale mais, tem mais posses que tu. Qualquer sacola de alface ou de rúcula fala mais de duas línguas. Nunca vi tanta arrogância por metro quadrado.
Ouvi atento esse discurso.
A pele negra como a noite, invisível aos olhos de muitos. Falava ao vento, todo sujo, fedendo, articulado, o semblante aprazível era desconcertante e provocativo. A livraria estava prestes a abrir, o sol brilhava com seus falsos raios de calor. Passei a manhã toda pensando naquele discurso. Entre um livro e outro, entre uma conversa e outra, entre um café e outro, as palavras voltavam, uma passada de olhos nos clientes no interior da livraria, as palavras voltavam. Uma colega chamou minha atenção pelo meu rosto em concordância com aquelas palavras. Que cara é essa?, perguntou. Nada, nada, respondi.
A livraria ficava ali na Vieira de Castro, bem perto do Colégio Militar, bem ali. Essencialmente, o público era aquele pessoal descolado do Bonfim e arredores. Com todo esse tempo de trabalho como livreiro, e com alguns eventos, nem me importava mais com isso. Agora, por algum motivo, ainda desconhecido, me bateu diferente. Um incômodo transitava nos meus pensamentos, nas minhas ações. Mesmo com todas as leituras, mesmo com todos os estudos, eu me via muito mais próximo aos moradores de rua do que aos frequentadores da livraria. Trabalhar numa livraria não tirava minha irmandade deles. Me sentia como um estranho na aldeia, um intruso, um corpo estranho no meio daquele mundo próprio deles.
“Ô, meu parceiro, me vê um café e duas empanadas aí, valeu?”
O pedido do cliente me trouxe de volta. Quase todo dia o Cristiano estava lá na livraria para ler algum livro do Foucault, fumar seu cigarro de kumbaya, colocar seu boné vermelho da Lancheria do Parque na mesa, ao lado da ecobag do Mercado Brasco, fazendo anotações no seu caderno sem pauta, só existindo e contemplando a existência humana. Volta e meia ele abria a boca para falar da profissão de fotógrafo e os estudos do mestrado em ciências sociais.
“É bom ser branco, né?”
Ter uma colega negra era bom por causa disso. Dei uma boa risada com ela. Não era só eu que notava essas coisas, que sentia esse incômodo. Winnie era professora de Geografia, trabalhava comigo na livraria, fora os outros freelas em alguns bares de Porto Alegre. Ninguém sabia como ela fazia tanta coisa, inimiga do fim brincava consigo mesma, todo dia contava uma história diferente que tinha acontecido na madrugada, e ao mesmo tempo eu sabia muito pouco da sua vida particular. Ela era aquele tipo de pessoa que é muito amiga, muito parceira, e muito reclusa, que preserva sua vida particular. Nunca quis ser indiscreto, mas confesso que já quis perguntar mais sobre sua vida. Uma coisa que eu sabia era que sua mãe havia falecido, e assim como eu sabia, o luto era algo a se trabalhar.