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Cony 100 anos – Uma caderneta para Havana

Parêntese #320

Cony 100 anos – Uma caderneta para Havana
Página inicial da caderneta de telefones que Cony levou a Cuba. (Arquivo do escritor)

Confira todos os textos da edição #320

Em 2015, quando tomei contato com o arquivo de Carlos Heitor Cony, um objeto de cara me chamou a atenção, em meio a muitas pastas recheadas com recortes de jornais criteriosamente organizados por sua secretária, Flávia Leite: uma caderneta de telefones do escritor, esse objeto com o qual nós, agora habitantes do século XXI, praticamente não temos mais contato.

Mas, há até relativamente poucos anos, trocar a caderneta a cada final ou início de ano era uma prática bastante comum, assim como trocar de agenda. Passávamos a limpo todos os telefones ainda importantes, atualizávamos os números que haviam sido alterados e eliminávamos aqueles que não tinham mais relevância ou utilidade – o que podia gerar dúvidas, aliás. Vale lembrar que havia as cadernetas maiores, de mesa, para ficarem em casa, e as de bolso, como é o caso dessa que encontrei no arquivo de Cony, as quais em geral não traziam todos os contatos de uma pessoa, mas somente aqueles considerados como de estrita relevância, os números que poderiam ou até precisariam ser acionados, inclusive em caso de emergência.

A caderneta em questão foi preparada, muito provavelmente, no final de 1967 ou início de 1968, quando o escritor organizava sua viagem a Cuba. Ou seja, já depois do golpe civil-militar que derrubara o governo legalmente eleito de João Goulart, e já depois das crônicas nas páginas do Correio da Manhã que lançaram Cony como um dos nomes mais significativos na resistência à ditadura que se instalava e o fizeram ser processado diretamente pelo então ministro da Guerra, general Costa e Silva, bem como ser preso diversas vezes.

Letra A da caderneta, com o contato de Alfredo Guevara. (Arquivo do escritor)

Desde 1961, Cony mantinha naquele jornal a coluna “Da arte de falar mal”. Nela, era muito raro que abordasse as questões políticas daqueles anos tão conturbados para o cenário nacional – as reformas de base, o subdesenvolvimento etc. Mesmo quando resolvia tratar delas, insistia em se definir como não sendo de esquerda nem de direita. Mas, isso, somente até o golpe, pois já no dia 2 de abril de 1964, saía – nas páginas do mesmo Correio da Manhã que havia clamado “Fora!” e “Basta” para João Goulart – uma crônica de Cony intitulada “Da salvação da pátria” e que mostrava de modo bastante irônico o grupo militar que tomava o poder, lançando um questionamento a respeito do que a nação tinha deixado acontecer. O gosto amargo da dúvida e da derrota se acentuaria conforme os dias se passavam, e o escritor abriu espaço, em sua coluna, inclusive para a publicação de textos de outras pessoas, para que fossem denunciadas as prisões e torturas sofridas pelos opositores do novo regime.

Tais crônicas acabaram por arrebanhar leitores não só no Rio de Janeiro, e Cony, que era conhecido até então sobretudo como escritor – autor de vários romances de sucesso junto ao público e crítica –, passou a ser reconhecido como o corajoso cronista que falava o que muitos pensavam. Ainda no próprio ano de 1964, em junho, seus textos contra a “revolução dos caranguejos” foram reunidos e publicados na coletânea O ato e o fato, da mesma Civilização Brasileira de Ênio Silveira que publicava todos os seus livros. O lançamento da obra reuniu grande número de pessoas, numa espécie de primeira manifestação pública contra a ditadura recém-instituída.

No ano seguinte, o jornalista, percebendo que não mais teria seu espaço de escrita garantido, acabaria por pedir demissão do Correio. Era, porém, uma figura bastante conhecida, e continuaria publicando seus romances (em 1964 saíra Antes, o verão; em 1965 saiu Balé branco; em 1967 saiu a primeira narrativa em que ele abordou a situação política contemporânea, Pessach: a travessia).