Confira todos os textos da edição #309
Histórias de Autógrafos: Antonio Callado em "Quarup", por Carlos Gerbase
Proust-à-porter: O eu profundo e outros eus, por Claudia Laitano
Gilles Lipovetsky: “A Europa tornou-se vassala dos Estados Unidos da América”, por Juremir Machado da Silva
Projeto Gema – Dez anos: outras histórias antes das histórias, por Lucas Luz
Porto Alegre, 1900-05: O Ocaso e o início de suas arenas de touros, por Arnoldo Doberstein
Diário da guerra do sono: Capítulo IX – A evidência, por Cristiano Fretta
A mula nossa de cada dia, por Helena Terra
Estou lendo Coisa de rico, livro do antropólogo Michel Alcoforado que está fazendo muito sucesso no Brasil. O autor diz que, em determinando momento das suas desastradas tentativas para ter acesso aos milionários, aceitou o conselho de uma especialista desdenhosa para se preparar melhor e foi se aperfeiçoar na Europa, tendo feito cursos de “figurões” como Gilles Lipovetsky. Então liguei para o meu velho amigo Gilles e agradeci, pois tinha acabado de receber pelo correio sua mais recente obra, A Odisseia da superpotência, que chegou ontem às livrarias francesas. Mais do que interessante, a conversa que tivemos foi sintomática.
Para Lipovetsky, a Europa errou tudo em suas estratégias pós-Segunda Guerra Mundial e principalmente pós-queda do muro de Berlim: acreditou na ilusão da pós-história, num mundo livre baseado exclusivamente no comércio, com respeito à soberania nacional e à autodeterminação dos povos, e não se preparou para a defesa dos seus territórios. “Hoje, a Europa está desarmada e vassala dos Estados Unidos”. Num mundo dividido entre EUA, China e Rússia, a Europa está fora do jogo, sem condições de agir e, segundo ele, nada poderá fazer se Donald Trump tomar a Groenlândia. A OTAN, destacou, implodiria, mas o fato seria consumado.
O filósofo considera que Trump despreza a Europa, tomando-a por muito covarde, e quer rachá-la. Ainda que França e Inglaterra tenham armas atômicas, a estrutura militar europeia de defesa é limitada face aos Estados Unidos. Os aviões da Inglaterra e da Dinamarca dependem de tecnologia norte-americana. A Rússia, potência nuclear, oscila entre a incompetência para avançar na Ucrânia e o desejo de potência que move o autocrata Vladimir Putin. Se o russo conquistar a Ucrânia certamente não vai parar por aí, pois alimenta o sonho de reconstituir a Grande Rússia.