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Pedaço de uma vida íntegra

Parêntese #313

Pedaço de uma vida íntegra

Faleceu esta semana Felix Silveira Rosa Neto. Pelo nome talvez pouca gente considere relevante a informação, como de resto ocorre com todo mundo – quem morre conheceu algumas pessoas e não conheceu a esmagadora maioria dos demais. Felix, também como qualquer outra pessoa, carregava uma experiência forte, que o marcou para sempre. Só que, ao contrário de quase todo mundo, essa experiência se encadeia diretamente com um trecho fortíssimo da história do Brasil. 

Abaixo vai apresentada uma parte de sua história, que tem em seu miolo um nó: ele foi o líder um de sequestro mal sucedido, em Porto Alegre, em 1970, evento planejado para pressionar o regime militar brasileiro, que prendia, torturava e até matava opositores impiedosamente. Gente que estava do mesmo lado que o Felix morria nas mãos de torturadores, e por isso, num gesto extremo, a oposição armada deliberou fazer sequestros de diplomatas estrangeiros como forma de pressionar o regime a liberar ao menos os mais torturados dos presos políticos. A ideia era, também, contar, como forma de apoio, com a opinião pública internacional, já que internamente a censura impedia a circulação das informações.

Não era um passeio, não era fácil, nem estava entre as primeiras escolhas da oposição. Todos esses que optaram pela luta armada sabiam dos riscos imensos que corriam, e todos tinham antes batalhado pela simples e pura continuidade da democracia formal, em que, antes de 64, o Brasil vivia, com imensas contradições, vivas até hoje em parte, mas com canais de participação e caminhos de emancipação social. Mas veio o Golpe naquele ano, vieram as cassações, o fechamento do congresso com a imposição de apenas dois partidos, depois veio o AI-5, a suspensão de garantias básicas de democracia. E alguns militantes, quase todos muito jovens, entenderam que o caminho era a luta armada.

Felix estava entre esses. Sua história é impressionante e cheia de meandros. Alguns aparecem nessa entrevista, que não foi concluída, mas creio que merece a leitura de todos os interessados em entender a história do país. 

Quando entro eu na conversa: eu o conheci por intermédio do Cláudio Moreno, em 2010. Moreno me recomendou ao Felix como alguém que poderia ajudar a contar sua história. E por aí começamos a nos conhecer, iniciativa que se transformou em convivência e numa amizade forte, entre nós e nossas famílias, de então até agora. 

Naquele momento, quem era o Felix? Um aposentado da carreira bancária, como executivo do mercado de crédito, que no fim de muito tempo foi anistiado e retomou sua carreira no Banco do Brasil. Ele parou de trabalhar mas, muito ao contrário de significar descanso, a nova condição para ele se converteu no aprendizado de um novo trabalho: a doma racional de cavalos. Sim, aquela doma que é carinho e parceria, nunca violência. Eu mesmo vi o Felix realizando algumas manobras de suspender o fôlego e parar para celebrar. Ele tinha sido um guerrilheiro, um preso político, e antes disso um estudante de Arquitetura, e em todos os tempos desde a juventude o grande parceiro da Iracema, e ela a grande parceira dele. 

Se paro agora de contar isso é apenas para poupar o leitor. Para os efeitos da homenagem que aqui faço, falta apenas dizer que o depoimento que o Felix ia dar e virar um livro não foi concluído. Os motivos são variados e requereriam algumas páginas de esclarecimento, que ficam para outra hora. O leitor com acesso ao arquivo da Zero Hora pode procurar a edição de 5 de junho de 2011, em cuja capa está o Felix, que naquele momento resolveu pela primeira vez contar em público sua versão da história do malfadado sequestro. Saiu uma excelente reportagem do Nilson Mariano com fotos do Ricardo Chaves. 

O que se vai ler abaixo é material escrito naquele ano de 2011. Eu escrevo uma abertura, apresentando o entrevistado, e segue a interação por escrito. No calor da nossa interação daquele contexto, o Felix topou ir respondendo a perguntas que eu fazia, na perspectiva de que com o tempo a gente acumularia um bom material e depois veríamos se era o caso de publicar como entrevista ou tentar outro caminho. A conversa parou, mas não nossa amizade, muito menos meu respeito por sua trajetória de vida.