Confira todos os textos da edição #319
Elis Regina, 81, por Antônio Schimeneck
Cony 100 anos – A entrada no mundo, por Marina Ruivo
Um ficcionista indispensável, por Sergius Gonzaga
A imagem perdida, por Sergio Faraco
Era Lisboa e chovia, por Ivan Pinheiro Machado
Quino, a ditadura e além – dados sobre um pessimista atemporal, por Vinícius Rodrigues
Fases da vida: saudades imaginárias, por Juremir Machado da Silva
Legião Urbana: o extraordinário nada de mais, por Paulo Damin
É só Rock Gaúcho... mas foda-se!, por Arthur de Faria
A medida das coisas humanas – Capítulo IX, por Helena Terra
Entrei naquela fase em que se costuma ter saudades de si mesmo. Tenho saudades de mim. Dos meus cabelos longos como moldura de um rosto sereno, quase triste, mas não sofrido. Tenho saudades do meu destemor em relação aos perigos da vida, o que fazia nunca temer a perda dos dedos, me levando a mostrar os anéis como permanente provocação. Tenho saudades do meu olhar sempre altivo, enxergando longe, apesar da minha miopia, com a certeza de que encontraria o arco-íris depois de cada curva do horizonte. Era assim.
Não sei em que momento exato comecei a pensar no futuro, essa maneira de se atrelar ao passado por medo de não dar o próximo passo em consonância com os anteriores. Tenho saudades do tempo em que galopava a cavalo nos campos de Palomas e da Florentina com o único objetivo de sentir o vento da manhãzinha me banhando o rosto com a suavidade das noites de primavera.
Então eu me atrevia a cantarolar frases sobre a liberdade, que ainda era uma calça velha, azul e desbotada, sob medida para viagens enluaradas.
A vida é feita de fases. Numa delas, bota-se o pé na estrada e não há chão que baste para a vontade de engolir mundo. Foi o que fiz bem cedo para ter tempo de envelhecer na estrada. Noutra fase, aquela em que me encontro, tem-se a estrada trilhada nos sonhos, que são lembranças fora de ordem.